September 5th, 2012

rosas

horácio tavares de carvalho

Soube por estes dias, nos acasos do facebook, a notícia da morte, no passado mês de Agosto, de Horácio Tavares de Carvalho. Não se trata propriamente de uma celebridade: HTC era conservador dos registos no Algarve, e no Algarve teve uma efémera carreira política, ligada ao PSD, que terminou com a ascenção do cavaquismo, e que culminou com o cargo de governador-civil de Faro durante os anos 80. De resto, as raríssimas notícias que encontrei na net sobre o seu passamento referem essencialmente esta carreira política.

No entanto a razão porque aqui o evoco é outra. Durante os mesmo anos 80, HTC publicou três livros, que eu li quando teria à volta dos meus 20 anos. Sobretudo o primeiro, Inquérito Póstumo, que, fui ali confirmar, li em 1981, ainda nem tinha vinte anos. Era um tomo de respeito, com mais de 600 páginas, e terá sido talvez o livro mais volumoso que eu tinha lido até à altura.

Foi um livro especial, que me marcou imenso, escrito com uma estrutura narrativa muito original, como se fosse um dossier com todos os elementos recolhidos pelo narrador, um jornalista, acerca de um homem que tinha morrido recentemente, de quem o narrador não gostava particularmente, mas sobre quem tinha recebido a incumbência jornalística de escrever uma série de artigos.

Já o tentei reler algumas vezes mas nunca consegui, folheio-o, leio as primeiras páginas, mas acabo por o descartar em favor do flavour of the day. Não sei se fui eu que cresci para fora do livro ou se foi ele que se afastou de mim. Li mais dois livros do HTC, creio que os únicos que ele publicou, Cavatina e 485224, mas acerca dos quais me lembro pouco. Durante uns anos fui acompanhando o nome de HTC, particularmente quando fez política, mas depois acabei por não saber nada dele durante anos, sempre me intrigando o facto de nunca mais ter publicado nada, um homem que, a avaliar pelas obras que editou, era claramente um escritor, e dos bons.

Descubro agora, a propósito da sua morte, que Horácio Tavares de Carvalho tinha uma página no Facebook e, principalmente, que sempre viveu em Lagoa, uma cidade algarvia onde eu fui muitas, mas muitas vezes, e passei longas temporadas, nomeadamente as longuíssimas férias de verão enquanto estudante universitário. Este ponto de contacto e de desencontro, a importância que teve para mim a leitura de Inquérito Póstumo, e o facto de não ter tido notícias suas durante tantos anos, fazem-me sentir, em relação à sua morte, aquela espécie de tristeza, mais por nós mesmos do que pelos outros, que sentimos com a partida de um grande amigo de juventude de quem a vida nos afastou.