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kok nam
rosas
innersmile
Um dos meus poemas preferidos do Rui Knopfli, intitulado Aeroporto, e que já aqui pus mais de uma vez, começa assim:"É o fatídico mês de Março, estou / no piso superior a contemplar o vazio. / Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me, obliquamente, nos olhos: / Não voltas mais? Digo-lhe só que não."

Este Kok Nam, assim imortalizado num poema doloroso sobre o mais doloroso dos dias, foi, juntamente com Ricardo Rangel, o mais celebrado dos fotógrafos moçambicanos. Mas antes de ser fotógrafo, Kok era jornalista: como foto-repórter, claro, mas também como um dos subscritores do primeiro grupo media privado em Moçambique, tendo sido director de um jornal independente, até ao dia da sua morte.

Kok Nam fazia parte de um grupo cada vez mais raro de homens que viveram por dentro, quotidianamente, o estertor do regime colonial português, e o nascimento da nação moçambicana, e a sua atribulada história de menos de 40 anos. Tinha sobre outros a vantagem de, além de a registar com a memória, a capturar para sempre com o obturador da Nikon.

Na hora do seu desaparecimento, resta-nos o conforto frágil de saber que, como no poema de Knopfli, sobreviveremos "apenas no precário registo das palavras."