August 9th, 2012

rosas

o zé das medalhas

Infelizmente tenho visto muito pouco as transmissões televisivas dos jogos olímpicos e ainda não consegui seguir nenhuma competição com atenção do princípio ao fim. Mas um dia destes apanhei a transmissão de uma final de natação feminina em que foi batido um recorde mundial. Registei um dos comentadores da Eurosport ter referido que nestas situações o entusiasmo pelo facto de ter caído um recorde mundial é generalizado a todos os intervenientes, e ultrapassa em muito o orgulho patriótico do país a que os atletas pertencem.

Lembrei-me disto a propósito da febre medalhistica que assolou os portugueses e os jornalistas desde o princípio dos jogos. Ao ponto de ontem, perante a medalha de prata conseguida na canoagem, o sentimento geral ser uma espécie de finalmente!, até que enfim! Isto, é claro, diz bem da nossa mediocridade, desta necessidade um pouco neurótica que temos de nos resgatarmos através do sucesso dos outros, ao ponto de os vilipendiarmos quando falham, mas de partilharmos os seus sucessos como se afinal fossem nossos.

Como se os atletas presentes nos JO tivessem obrigação de ganhar medalhas. Não têm. Em nenhuma circunstância. Porque quem dá o corpo ao manifesto, em condições de ter de se suplantar a si próprio através do treino e do esforço pessoal, não merece nem pode estar sujeito a esta espécie de obrigação redentora do nosso patriotismo provinciano. Além disso, não ganhar medalhas não significa que os atletas foram aos JO para se divertirem e se entregarem à borga. Quer dizer, eles foram aos jogos porque trabalharam para isso, porque alcançaram resultados. E vão aos jogos para darem o melhor de si. E devem fazê-lo de uma forma divertida, sim, porque a prática do desporto deve significar sempre um princípio de prazer. Com esforço, com sacrifício, com espírito de suplantação, mas sempre por gosto e com alegria.

A representação de Portugal aos JO de Londres foi grande, creio que a quinta maior de sempre. Tivemos atletas presentes pela primeira vez em certas modalidades, como creio ter sido o caso do ténis de mesa feminino. É essa a medida do nosso sucesso: termos muitos atletas a atingirem os seus objectivos de qualificação para os jogos, e num naipe de modalidades cada vez maior e mais diversificado. Porque é isso que nos dá o sinal de que há cada vez mais jovens envolvidos na prática desportiva, que os melhores são reconhecidos e apoiados, e que há condições para a prática de alta competição.

Mas além de Portugal ter tido uma das suas maiores delegações de sempre, e quando ainda faltam alguns dias para terminar esta edição dos jogos, houve atletas portugueses a competir em finais, houve atletas que ganharam diplomas olímpicos, houve atletas a melhorar as suas marcas pessoais. E houve até, pelo menos, uma medalha de prata. Não me parece pouco. E, antes pelo contrário, até me parece que, e como é suposto ser, os que estão em Londres serão de facto alguns dos melhores portugueses.