August 2nd, 2012

rosas

estudantes

A homossexualidade é um subtexto dos Diários do Isherwood. Não no sentido de ser implícita (ao contrário, está sempre explicita, ou mesmo explicitada), mas no de que a voz do autor é sempre a voz de alguém que é homossexual e por isso fala sempre, naturalmente, desse ponto de vista, ou desse lugar, para ser talvez mais preciso. Também não estou a dizer que todo o diário é sobre a homossexualidade, nada disso, antes pelo contrário. A homossexualidade quase nunca é o tema, ou só muito raramente o é. Mas, reforçando a ideia, nunca nos podemos esquecer de que o tipo que está a escrever é um homossexual.

Este trecho que cito a seguir é um bom exemplo disso. O Isherwood dava regularmente aulas em universidades californianas, quase todas da área de Los Angeles, às vezes em San Francisco. Dava aulas, fazia prelecções e conferências, organizava cursos e seminários. Uma das universidades onde deu aulas foi a University of California Riverside, nos arredores de LA. Em Maio de 1966, no final de mais um ano lectivo, Isherwood faz um balanço dos seus alunos preferidos, e escreve:

"Riverside leaves very happy memories on the whole, and I plan to go back there next year. My favourite students - Ken Day with his prematurely wrinkled sweet Irish eyes, beautiful puzzled-looking Bob Edwards the blond rugby footballer who always seems to be in tears because his contact lenses bother him, carrot-haired Mickey Kraft the politician in his suede boots, Jeff Morehead the Salinger Kid with his spectacles and soft blurry face and gangling charm, Larry John the golfer with his tangled golden curls and creamy skin and long Jewish nose and sly smile. All of these have talent, to some degree."

Esta passagem continua com o elencar dos talentos literários e académicos dos seus alunos (nomeadamente de alguns que não foram mencionados nesta parte inicial do texto), mas não deixa de ser significativo que a primeira abordagem de Isherwood seja uma apreciação baseada exclusivamente no seu aspecto físico. Ou seja, quando se refere aos seus alunos, Isherwood é, em primeiro lugar, um homem a apreciar a beleza física de outros homens, e homens jovens, muito mais novos do que ele, que nesta altura estava quase a fazer 62 anos.

Mas Isherwood não se limita a descrever fisicamente os seus alunos. O seu talento de autor e escritor transparece de forma indelével no texto. Com uma simples frase, Isherwood quase que cria personagens, ou pelo menos torna-as suficientemente atractivas para que nós, leitores, nos interessemos de imediato por elas. E a sua escrita ganha um tom quase erótico (os tangled golden curls e a creamy skin, os sweet Irish eyes), uma qualidade pictórica contaminada por um olhar inevitavelmente marcado pelo desejo.