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mundo
rosas
innersmile
Suponho que tenha sido outra a ideia dos autores desta pichação, mas é muito reconfortante eu começar o meu dia, mal saio a porta de casa, a responder-lhe com uma espécie de mantra: EU quero viver neste mundo!

Foto0368

gore vidal
rosas
innersmile
Soube primeiro pelos blogs e depois confirmada nos sites dos jornais, a notícia da morte do escritor Gore Vidal. É uma notícia triste, apesar de não ser, dada a sua idade e condição de saúde, propriamente chocante. E é triste porque Vidal era um dos meus heróis literários. Na vida de quem gosta de ler e de livros, há autores favoritos, mas há também heróis, escritores de quem gostamos muito, e por muitas razões que ultrapassam o próprio reconhecimento da sua obra. Mais do que livros, e livros bons, são escritores que nos transmitem a ideia uma vida vivida sob o signo da literatura, de um mundo literário. Gore Vidal era inegavelmente um destes, e a sua perda significa que essa vida e esse mundo ficaram mais pobres.

Vidal não era um tipo simpático, era vaidoso e provocador, mas tinha a qualidade de dar o peito ás balas, de subir ao ringue e ir á luta. Era snob e arrogante, mas nunca se considerou um intocável. Tinha um ego enorme, como tantas vezes acontece com os escritores. Mas, o que já não é muito frequente, tinha obra e intervenção, e toda uma vida pessoal e pública, que dava corpo e substância a esse ego. Muitas vezes me irritei com coisas que ele dizia, ou com polémicas que alimentou, com os seus famosos ‘feuds’, literários ou não. Vidal disse mal, e fazia-o sempre com particular veemência, de alguns dos meus escritores preferidos. Um dos últimos casos foi com o Edmund White, que se atreveu a escrever uma peça de teatro inspirada na relação entre Gore Vidal e Timothy McVeigh, o terrorista de Oklahoma City. Vidal vilipendiou quer a peça quer o seu autor.

Não li muitas obras de Gore Vidal, mas entre as que li houve algumas que me marcaram imenso, sobretudo a novela A Cidade e o Pilar, e a colecção de contos Clouds and Eclipses, indispensáveis para quem deseja aprender com a experiência homossexual dos outros. E Myra Breckinridge, que eu li nos anos 80, uns vinte anos depois de ter sido escrita, e que me surpreendeu pela ousadia e pelo humor satírico. E, há poucos anos, o álbum Snapshots in History’s Glare, uma colecção de fotografias de Vidal e da sua vida, com comentários do próprio. Mas os dois livros de Gore Vidal de que mais gostei foram os dois volumes auto-biográficos que publicou: Palimpsest, que li em 1998, durante uma estadia de três meses no EUA e que deveria reler um dia destes, e sobretudo Point to Point Navigation, o segundo volume de memórias, genial até na escolha do título.