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sneezing
rosas
innersmile
A propósito da lucidez do Christopher Isherwood, de que falei aqui há dias. Numa entrada de Novembro de 1962, o Isherwood conta que foi ao hospital visitar um amigo, o celebrado actor inglês Charles Laughton, que estava a morrer de cancro. Durante a visita, rezou ao Ramakrishna, e sentiu uma intensidade muito forte na sua oração e que o comoveu tanto que pensou, tropeçando no seu próprio ego, que se Laughton morresse naquele momento seria maravilhoso, seria uma morte muito pacífica. E logo a seguir acrescenta esta pérola de auto-conhecimento, de assumirmos as nossas fraquezas e aprendermos a viver com elas:

"It is most important not to make these confessions about the ego as though they were horrifying. They are not – it is mere vanity to pretend that the ego doesn´t come along every step of the way; it is there with you like your sinus and its instructions are no more shocking than sneezing."

(segunda) carta ao Saint (em Paris?)
rosas
innersmile
Queridíssimo

cheguei há pouco a casa e tinha na caixa do correio a tua encomenda, com os livros da Lygia e da tua amiga Elvira, e com uma carta maravilhosa. Tentei ligar-te de imediato, mas mais uma vez não consegui ligação para o teu celular.

Fiquei muito feliz, é claro, mas ao mesmo tempo senti uma intensa tristeza, por, de algum modo, ter sentido que te perdi, que nos desencontrámos, que tu estiveste em minha casa e eu não estava cá. Não faço, como é óbvio, a mínima ideia de quem possa ter estado à minha porta a entregar pessoalmente uma encomenda que lhe(s) terá sido entregue pelas tuas próprias mãos. Queria ao menos ter visto essas mãos. Assim, resta-me o conforto da ideia de que tu vieste do Brasil, passaste à minha porta, eu não estava, e deixaste a encomenda na caixa do correio. Há nesta hipótese quotidiana, corriqueira, circunstancial, alguma coisa que me aproxima de ti.

Não me pareceste muito entusiasmado com a França. Uma das coisas boas que viajar nos dá é precisamente a constatação de que somos todos iguais, e que, como diz o Caetano, 'apenas a matéria vida era tão fina'. Mas isso não é mau. Nem sequer é mau o facto de, como dizes na tua carta, o ser humano em geral ser tão pequeno. Afinal, e de novo em Cajuína, 'foi quando tu me deste a rosa pequenina, vi que és um homem lindo'.

Fico muito contente com o facto de teres vindo finalmente à Europa. Acho que para ti era tão importante que enquanto não a viesses ver com os teus próprios dedos (e os teus próprios lábios?) tinhas sempre essa ansiedade por resolver. E que, por alguma estranha razão, também me causava ansiedade a mim. Parece-me que, assim, temos ambos um assunto resolvido. Só não consigo evitar uma certa mágoa por não nos termos encontrado. Não é mágoa, é só remorso, por achar que devia ter feito alguma coisa, insistir, para ir ter contigo. Mas para além de a minha vida nos últimos tempos ter sido muito complicada (e de certo modo continuar a ser), havia uma hipótese na tua estadia europeia em que eu não me queria intrometer.

Estou ansioso por saber novidades. Apetecia-me muito que tu, no regresso, parasses cá em casa e passássemos uma noite inteira a conversar, para me contares tudo da tua vinda à Europa. Posso ter esperança que me contes tudo? Por carta, ou, de preferência, no moribundo Opiário?

Um beijo imenso

miguel

PS: pela segunda vez, vou pôr uma carta que te escrevo no innersmile. Espero que não te importes. Mas o innersmile é o mais importante dos meus cadernos, e ter lá esta carta parece-me fazer todo o sentido.