July 20th, 2012

rosas

lucidez

Estou completamente submerso nos diários do Christopher Isherwood. Pergunto-me muitas vezes o que é que me neles fascina tanto, tal como já tinha acontecido em 2001, quando li o primeiro volume. Acho que são várias as razões, que vão da crónica do tempo ao gossip, do insert que nos proporciona em relação à mente de um grande escritor, à própria qualidade da escrita, nomeadamente quando o tom resvala para a narrativa. Numa das entradas Isherwood escreve o plano de uma novela e são meia dúzia de páginas de puro prazer, que se lêem quase
como se se tratasse de uma obra acabada.

Mas o que mais me seduz no livro é o próprio Isherwood, a maneira crua como ele se olha a si próprio. Há muita ternura mas também muita mordacidade no olhar que Isherwood dedica aos que o rodeiam, aos amigos, à corte de actores e outros habitantes de Hollywood em cujo meio ele vivia, aos grandes vultos da cultura, em especial da literatura, com que privou. Mas quando Isherwood fala de si, de Don Bachardy, e da relação que os une, o tom é sempre de uma lucidez quase assombrosa. Mesmo quando reage a quente, mesmo quando cede às emoções. Aliás, ser lúcido não significa necessariamente que se seja cerebral e frio.

De resto há um trecho em que Isherwood, referindo-se a um dos gurus das religiões orientais que professava, diz ter finalmente percebido que a essência da pureza do Ramakrishna, não era ele ser incapaz de cometer actos impuros, mas sim o facto de não mentir acerca deles.