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o grau zero da politica
rosas
innersmile
Sem paciência para a política e para os desmandos da “situação”. Mas duas notinhas a propósito de outras tantas iniquidades.

Claro que não simpatizo com o Relvas (é dizer pouco, claro, abomino o figurão) e acho deplorável a história da sua licenciatura a la minuta. Espero que todos aqueles que rasgavam as vestes com o Inglês Técnico dominical de Sócrates, aprendam que a superioridade moral e os julgamentos de carácter nunca são boas armas de arremesso político.

Mas para falar com franqueza o aspecto que mais me impressiona nesta história tem a ver com o papel dos media. Os jornais, ou os meios de comunicação social em geral, que lançaram e mantiveram campanhas de assassinato de carácter contra Sócrates, estão-no a fazer agora com Relvas. Em alguns casos, os mesmíssimos jornais. Abriu, indubitavelmente, a caça ao Relvas, como tinha aberto a caça ao Sócrates. E os caçadores só vão descansar quando acontecer com Relvas o que aconteceu com Sócrates. E como não se assumem, somos todos livres de especular acerca das verdadeiras razões porque o fazem.

A outra iniquidade prende-se com a reacção do primeiro-ministro à decisão do Tribunal Constitucional em considerar inconstitucional a medida governamental de cortar os décimos terceiro e quarto meses das remunerações dos trabalhadores da administração pública. Como sempre, a impreparação e a imaturidade do primeiro-ministro vem ao de cimo: “tem mesmo de ser assim, não é?”, insinuando perfidamente que a decisão do TC obriga a que os cortes sejam estendidos a todos os trabalhadores.

O primeiro-ministro sabe que a questão de “estender” (a expressão é dele!) os cortes a todos os trabalhadores é complexa, quer do ponto de vista técnico, quer do legal, quer do operacional, quer mesmo em termos da utilidade orçamental em fazer cortes no sector privado. O corte das remunerações aos trabalhadores da função pública destinou-se essencialmente a fazer baixar a despesa pública, medida que, como é evidente, não tem impacto estendendo os cortes ao sector privado.

Por isso a sua reacção, de aparente ingenuidade (“tem de ser, não é?”), é cíníca e hipócrita. Porque a ingenuidade é falsa. Mas também porque está, de forma malévola, manhosa, a empurrar as culpas das suas decisões governativas para o Tribunal Constitucional.

Até por uma questão geracional, a política interessa-me e o debate político motiva-me. Mas o que estamos a assistir hoje em Portugal é o grau zero da política: falta visão, faltam objectivos, falta estratégia. Falta discurso e falta combate. O que sobra é a espuma infecta dos canalhas e dos imbecis: entre Relvas e Passos, venha o diabo e escolha.
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