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novela em construção
rosas
innersmile
O Caetano Veloso manteve durante muito tempo um blog intitulado Obra Em Progresso, que, mais do que dar conta, era assim uma espécie de sede on-line do processo de criação e de construção do que viria a ser o disco Zii E Zie. Claro, tratando-se de Caetano, o blog acabava por ser sobre tudo, mas sempre de uma perspectiva artística ou de intervenção cultural. E como Caetano deixou aberta uma página de comentários, o blog transformou-se ainda num ponto de encontro entre o artista e o seu público (que, como em todos os fóruns da internet completamente abertos, por vezes podia ser bastante bizarro). Fui durante meses seguidor atento do blog, suponho que possa ter falado dele aqui, comentei umas poucas vezes, e sobretudo deliciei-me com os processos de criação de uma canção, com a maneira como ela era experimentada e testada. Infelizmente, com a reformulação total do site de Caetano, o blog obraemprogresso.com parece ter sido desactivado. Em compensação o site tem um novo blog onde o bom, velho e torrencial Caetano está de volta (link).

Lembrei-me do blog de Caetano porque desde há uns meses o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte mantém um blog na net que constitui uma espécie de bloco de notas (blog de notas?), de caderno de apontamentos virtual de apoio à escrita de um romance. O blog chama-se Anotaciones Sobre Una Novela (link), mas curiosamente o seu endereço é muito aproximado ao nome do blog de Caetano: novelaenconstrucion.com! Em ambos os casos a ideia de que o sítio da net é testemunho, é o campus, a oficina, de uma outra coisa (um disco, um livro) que está a ser criado, construído.

Tratando-se Pérez-Reverte de uma personagem (bastante) mais comedida do que Caetano, o seu blog acaba por ser mais interessante, porque é mais puro e duro no que toca ao seu propósito. Talvez por isso, ou apenas porque a literatura tem outro poder e outro sortilégio, o fascínio é ainda maior, esse de acompanhar as notas do escritor, os seus apontamentos, os resultados de pesquisas (e as pesquisas são fundamentais nos livros de Arturo), ou mesmo pedaços de texto que podem ser do livro mas também podem ser ensaios para tomar a mão.

Como referi, um dos aspectos mais impressionantes dos romances de Pérez-Reverte é a riqueza e o rigor das suas pesquisas, e sempre me intrigou essa sua capacidade se tornar um verdadeiro perito nas matérias que constituem o pano de fundo dos seus livros, sejam elas a balística no tempo das invasões napoleónicas ou o narco-tráfico no estreito de Gibraltar. Numa das primeiras entradas do blog, Pérez-Reverte conta que velhos contactos o levaram a novos amigos, dois tipos formidáveis, como lhes chama, que o ensinaram a abrir caixas-fortes. Depois de escolher o tipo de cofre a usar no romance e de testar ele próprio o seu arrombamento, Pérez-Reverte termina o texto com esta frase lapidar: "Hay días en que me encanta escribir novelas".