June 26th, 2012

rosas

o abajur lilás

Fui no fim de semana passado ao Teatro da Cerca de São Bernardo ver a peça O Abajur Lilás, uma co-produção da Escola da Noite com o Cendrev, de Évora, com encenação de António Augusto Barros, para um texto de Plínio Marcos.

E podemos começar por aqui. O texto foi escrito em 1975 como um libelo contra a violência do regime ditatorial brasileiro. O enredo passa-se numa casa de passe, onde três prostitutas são vítimas de tortura por parte do cafetão que as explora e do seu homem de mão. O texto é muito cru e forte, a linguagem não evita qualquer obscenidade, e tudo isso serviu de pretexto para a proibição repetida da produção da peça no Brasil.

O encenador fez a opção feliz de manter inalterado o texto original ‘brasileiro’ mas ser dito com sotaque de Portugal. Essa opção, que seguramente tornou mais exigente o trabalho dos actores, realça a crueza do texto, tornando-o particularmente veemente aos ouvidos do espectador português. E a propósito de actores, cumpre destacar a excelência dos desempenhos, em papeis muito expostos e complexos. Não fazendo muito sentido, num espectáculo desta dimensão, particularizar o trabalho de qualquer um dos actores, não podemos deixar de destacar a prestação de José Russo, que domina o papel com grande autoridade e eficácia.

Um texto poderoso, uma encenação feliz, óptimo trabalho de actores. Não era preciso muito mais, mas cabe ainda destacar a cenografia de João Mendes Ribeiro, e os figurinos de Ana Rosa Assunção. Esta peça é um bom exemplo de como os figurinos não são simples formas de ‘vestir’ as personagens, mas são verdadeiros elementos cénicos e dramáticos.

O Abajur Lilás estreou em Évora, em Abril, e esta é a segunda temporada de representações em Coimbra. Talvez isso justifique o facto de não estarem na sala mais do que 10 espectadores, dos quais, digo eu, menos de metade terá pago bilhete. É uma desolação ver uma plateia deserta, e se o é para o espectador, suponho que ainda o seja mais para os profissionais que fazem o espectáculo (apesar de essa desolação não transparecer o mínimo durante a função). E, para além de tudo, é uma pena, uma pena enorme, porque esta é uma das peças de que eu mais gostei nos vinte anos de história da Escola da Noite.