?

Log in

No account? Create an account

travels with charley
rosas
innersmile
travels-with-charley

Terminei ontem a leitura do meu primeiro livro digital. Tinha muitas reservas em relação à compra de um leitor de e-books, e decidi-me pelo Kindle porque me pareceu que a Amazon seria a melhor opção em termos de disponibilidade de obras para leitura. Mas estava com receio de não me habituar ao novo formato, ou seja, de não conseguir alcançar o mesmo nível de envolvimento e concentração (e de alheamento da realidade exterior) que se tem em relação a um livro físico.

Uma das vantagens do Kindle é a possibilidade de fazer o download de uma amostra do livro em que estamos interessados, e que nos permite ler um número razoável de páginas. Li a amostra de um livro que há muito queria ler, e mal comecei a ler fiquei agarrado ao texto, de modo que fiz logo a compra e, um minuto depois, tinha o livro no kindle. Ou seja, tive sorte porque escolhi um livro fantástico, Travels With Charley In Search of America, de John Steinbeck, que não só me fez esquecer que estava a ler um livro em versão digital, como me ajudou a entusiasmar-me pelos e-books.

A leitura é muito fácil, o visor não é minimamente agressivo, não tem, por exemplo, a luminosidade dos ecrãs de computador, que cansam os olhos. O aparelho é leve e ergonómico, adapta-se muito bem às nossas posições de leitura (ou seja, dá para ler esparramado no sofá!), e há uma série de funcionalidades que ajudam imenso. Por exemplo a possibilidade de seleccionarmos uma palavra e abrir uma janela em pop-up com o respectivo significado; quando se lê um livro em inglês há muitas palavras cujo significado desconhecemos e que sacrificamos em nome do ritmo de leitura. Com o kindle, a pesquisa do significado de uma palavra que desconhecemos é instantânea e cómoda.

Enfim, a experiência foi muito boa e estou com vontade de pegar no meu próximo e-book.

E quanto ao livro? Eu gostei imenso deste relato de uma viagem à volta dos Estados Unidos da América que o escritor John Steinbeck, então com 58 anos de idade e com a sua obra nobelizada já toda escrita, decidiu fazer para, nas suas palavras, reestabelecer contacto com a verdadeira América e os verdadeiros americanos. A viagem foi feita apenas na companhia do seu cão de raça poodle, e a bordo de uma carrinha adaptada em auto-caravana, a que deu o nome de Rocinante.

O que mais me surpreendeu no livro foi o humor de Steinbeck, muito inesperado se tomarmos em consideração o tipo de narrativas que constitui o essencial da sua obra (se bem que Pastures of Heaven, o último livro dele que eu tinha lido, já ser uma obra mais ligeira, digamos assim). Mas o que mais fascina e prende em Steinbeck é a própria escrita, o modo como a narrativa e o texto fluem, como cada frase nos agarra e transporta, depositando-nos na frase seguinte. É um puro exercício de prazer.

Apesar de ser um livro muito popular e consagrado, ultimamente tem sido objecto de muitas críticas, nomeadamente quando à fidedignidade do relato. Num outro livro que ando a ler, A Arte da Viagem, Paul Theroux refere-se à obra de Steinbeck em termos pouco elogiosos, denunciando que a viagem solitária de Steinbeck terá sido tudo mesmo isso, já que na maior parte das vezes esteve acompanhado da sua mulher. Outras críticas dizem que ele passou pouquíssimas noites na Rocinante, optando antes por ficar em moteís e mesmo em hoteís caros. Mais recentemente outras vozes sugerem que os próprios encontros que Steinbeck relata são produto da sua imaginação de criador de ficção.

Ainda que todas estas acusações fossem verdadeiras, o essencial da questão mantinha-se invariável: Travels With Charley é uma grande obra literária, que vale pela qualidade da escrita e do testemunho humano, pelo valor da reflexão de Steinbeck sobre a nação americana, mas também sobre o indivíduo, onde e quando quer que ele esteja. Como o próprio John Steinbeck afirma no livro, “I’m happy to report that in the war between reality and romance, reality is not the stronger”. Como sempre acontece quando estamos perante um grande escritor, dificilmente alguém poderia afirmá-lo melhor.

PS. Identifiquei pelo menos duas desvantagens do kindle em relação aos livros físicos. A primeira é que, apesar de ter a opção de criar marcas e notas no texto, nada substitui o gozo de sublinhar e anotar um livro com lápis. A segunda é que fico sem uma capa para poder por lá cima, a abrir o texto. Escolhi esta porque o e-book que comprei era uma edição para o kindle do livro da Penguin.

dez
rosas
innersmile
No derradeiro capítulo, o 27º, do seu livro A ARTE DA VIAGEM, o escritor Paul Theroux identifica, em dez pontos, o essencial da viagem:

1. Sair de casa
2. Ir sozinho
3. Viajar leve
4. Levar um mapa
5. Ir por terra
6. Atravessar a pé uma fronteira nacional
7. Fazer um diário
8. Ler um romance que não esteja relacionado com o local onde está
9. Se tiver de levar um telemóvel, evitar usá-lo
10. Fazer um amigo


Constato que já segui estes dez mandamentos, embora nunca todos de uma vez. Alguns deles observo quase sempre, outros faço-o apenas de modo esporádico.