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cajueiro pequenino
rosas
innersmile
Não posso jurar pela exactidão desta história, porque não a encontrei em nenhuma fonte totalmente fidedigna. Mas pelo que fui encontrando em vários sites e blogs, Maria Bethânia conta que o seu amor pelas palavras e pela língua foi, juntamente com outros factores, despertado por um mestre que teve nos seus primeiros anos de escola, ainda em Santo Amaro da Purificação. O seu nome era Nestor de Oliveira, e além de professor, era poeta.

Em 1983 Bethânia gravou um dos poemas de Nestor, Ciclo, musicado por Caetano Veloso (que também acompanhou no violão), no álbum do mesmo nome. Não encontrei referência à canção na discografia de Caetano, por isso suponho que ele nunca a terá gravado.

O poema é lindíssimo, e de uma simplicidade desarmante: uma recordação da infância olhada da velhice, através dos elementos naturais que a habitavam, e com um forte apelo às cantigas e lenga-lengas populares que sempre, e a todos, nos ajudaram a descobrir o mundo. Confesso que para mim o poema é muito evocativo, vieram-me logo à lembrança os quintais das casas onde passei a infância, com os limoeiros, os cajueiros, e os jacarandás que enfeitavam, e enfeitiçavam, as ruas das cidades.

Acho que há nas infâncias passadas nos trópicos um cheiro, um sentimento, uma liberdade, uma entrega, que nunca desaparecem por completo. Ficam sossegadas, escondidas, à espera que uma canção ou um poema as traga de volta ao presente. E de constatarmos que “passa o tempo, e a vida passa”.



Passa o tempo e a vida passa
E eu, de alma ingênua, acredito
No sonho doce infinito
Plenitude, enlevo e graça
Que sem tortura ou revolta
Estou cantando ao luar
Vamos dar a meia-volta
Volta e meia vamos dar

Depois a estrada poeirenta
Os pés sangrando em pedrouços
E apaziguando alvoroços
A alma intranquila e sedenta
Murchessem todas as flores
A correnteza das horas
As trevas sobre as auroras
Os derradeiros amores

Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
E aquele ao léu do destino
Que inspirou tanto louvor
Cajueiro pequenino
Carregadinho de flor

Passa o tempo e eu fico mudo
Ontem ainda a ciranda
Vida à toa, a trova branda
Agora envolvendo tudo
O vale nativo, os combros
Várzea, montanha, leveza
Essa poeira de escombros
De que se nutre a tristeza

Velho, recordo o menino
Que resta de mim, sei lá
Cajueiro pequenino
Meu pé de jacarandá