June 2nd, 2012

rosas

a música portuguesa

Passei a tarde deste Sábado a ouvir dois discos belíssimos. De estilos muito diversos, têm em comum o facto de serem muito recentes, mas sobretudo serem ambos cantados em português.

Não conhecia o Miguel Araújo, tinha ouvido muito de raspão temas dos Azeitonas, e a referência mais sólida que tinha era ele ser o autor de Reader’s Digest, um tema muito apelativo e bem-humorado que o António Zambujo gravou no seu disco anterior, Guia. Gostei muito de Cinco Dias e Meio (com referência ao filme com Kim Basinger e Mickey Rourke, mas que se refere ao tempo que o disco demorou a ser gravado!), o seu disco de estreia, um conjunto de canções muito boas e irresistíveis. É um daqueles casos felizes em que são muito legíveis as influências da pop de extracção anglo-americana, mas que traz de forma igualmente indelével a marca da música popular portuguesa, não só nas letras, enfim, mas sobretudo nas soluções de alguns temas (identifiquei influências, por exemplo, de José Afonso ou dos Ornatos).



Do Chullage não se pode dizer que seja um estreante, nomeadamente em termos discográficos. Rappa há mais de dez anos e Rapressão é, se não estou em erro, o seu terceiro disco. Não sou grande consumidor de música rap, mas reconheço-lhe, hoje em dia, o papel quase exclusivo de fazer música de intervenção, radical e comprometida. Mas o que mais me atrai no rap do Chullage é a maneira como utiliza a língua, não apenas no que respeita às letras, todas muito fortes, mas sobretudo no modo como a canta/diz. O Chullage tem uma forma perfeita de silabar e entoar as palavras, usando toda a sua musicalidade para reforçar o seu significado e torná-la, passe o pleonasmo, muito musical. Este tema é, como é óbvio, construído em torno de um sampler famoso de José Afonso, e é uma canção fortíssima, que nos exalta a não nos conformarmos com o estado das coisas e a lutar contra a exploração mais miserável, que tem marcado a vida dos portugueses nos últimos tempos.



Só para chamar a atenção de que quer a falar no disco do Miguel Araújo quer no do Chullage, referi o nome do José Afonso. Não restam dúvidas, acho eu, que o Zeca foi o nome verdadeiramente refundador da música popular portuguesa, e a sua influência, depois de passadas todas as homenagens e outras citações, há-de ser cada vez mais forte.