May 27th, 2012

rosas

tinha uma pedra




NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


- Carlos Drummond de Andrade, ALGUMA POESIA
rosas

leveza

Cagar, dormir, tomar duche, comer. Descobrimos nas horas mais precárias que são poucas, e relativamente simples, as coisas decisivas para o nosso bem estar. E juro que isto não é um exercício de cinismo, nem significa que me estou a esquecer de todos os que não podem comer. Mas estou a falar das minhas circunstâncias, e apenas respondo por elas.

Ontem de manhã tiraram-me a sonda, descobri que tinha para aí uns trinta centímetros de tubo plástico enfiados dentro bexiga, e um balão cheio com duas seringas e meia de água. Depois tomei um banho e a coisa começou a melhorar. Antes de almoço vim para casa, comi um bife grelhado com arroz e passei a tarde a correr para a casa de banho com cólicas. A dor de cabeça persistia, antes de ir para a cama tomei um paracetamol e dormi a noite inteira. Hoje acordei, café da manhã semi-tropical, com pãozinho de queijo e mel, e, pronto!, senti-me com vigor e apaziguado com o mundo.

Claro que os jogos apenas começaram. Não consigo sacudir uma enorme sensação de desânimo. Apesar do grau de malignidade ser baixo e do prognóstico ser bom, esperam-me tratamentos, que podem durar meses, consultas, exames, controlos. Sei, porque já passei por ela, como o cancro é um buraco negro que suga toda a nossa vida, todo o nosso quotidiano, e fica a pulsar por toda a eternidade dos dias que vão passando. Como a pedra no poema de Drummond. E é isso, mais do que o puro medo que também sinto, que me desanima.

Apesar de ter tido um cancro quando tinha vinte e um anos de idade, e que me roubou o ouro dos dias fáceis da juventude, acho que tinha conseguido reconquistar uma leveza, feita de uma mistura de inconsequência e invencibilidade, que é, pelo menos da minha perspectiva, essencial para gozar a felicidade a que temos quotidianamente direito. E sinto-o agora, nestes momentos ainda atordoados em que desconheço os contornos do programa que se segue, porque não a quero perder e tenho medo que ela já se esteja a esvair por entre os dedos.