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grande otelo
rosas
innersmile


Gostei bastante de Otelo – O Revolucionário, a biografia que Paulo Moura, grande repórter do jornal Público, escreveu sobre a figura de Otelo Saraiva de Carvalho. A falta assumida das fontes de documentação não elide o facto de a obra revelar uma pesquisa intensa, que permite ao leitor acreditar no relato biográfico ao mesmo tempo que se interessa por ele como se de um romance se tratasse.

Otelo é talvez 'A' figura do 25 de Abril, não apenas por ser o estratego do golpe de estado, mas pelo carisma e pela força aglutinadora da sua personalidade. Otelo é o mais puro dos heróis de Abril, provavelmente porque é o mais transparente e o mais contraditório de todos, deixando à mostra os seus pés de barro.

Paulo Moura consegue a proeza de deixar intacta essa contradição entre a capacidade de liderar (de ser amado, pois é disso que fundamentalmente se trata) e a fragilidade do seu drive. Revela-nos Otelo mesmo naquilo que é irrevelável, ou seja o sombrio mistério de uma personalidade.

Para além de alimentar a nossa curiosidade e o nosso interesse em relação a Otelo e ao papel (ou aos vários papeis) que ele desempenhou na história da revolução portuguesa, o livro, sem ter a pretensão da historiografia, é fundamental para se conhecer e perceber melhor o que foram as últimas décadas do nosso país. Nenhum dos grandes actores está ausente, nenhum drama fica por convocar. Ainda por cima, Paulo Moura escreve bem e fácil, e a leitura deste livro é sobretudo um exercício de prazer.