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debris
rosas
innersmile



O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO

Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.



Já aqui tinha posto este poema de Kavafys, e agora reincido, mas com uma tradução diferente, esta de Jorge de Sena. Tenho-me lembrado muito do poema, e reli-o com atenção, à procura de sinais, ou do seu sentido mais claro. Ou simplesmente à procura de esconjuro.

Em momentos em que a nossa vida parece suspensa de qualquer coisa muito decisivo, é difícil resistir à tentação de ver em tudo um certo tom de definitivo. Acho cruel eu ter-me lembrado deste poema a propósito do momento que vivo, e apetece-me sacudi-lo da minha mente, para não azarar. Por isso a foto lá em cima serve para o contrapôr.

Mas percebo, acho eu claro, que o que me trouxe ao poema é essa carga de que se vai passar alguma coisa decisiva e de que o que for retomado depois já não vai ser, forçosamente, igual ao que era. É angustiante essa sensação, e, por outro lado, provoca-me uma necessidade de arrumar coisas, de as deixar preparadas, em ordem.

Aqui há umas semanas tive de ir buscar um velho telemóvel para desenrascar uma avaria. Entretanto arranjei um novo, e voltei a guardar o velho, desligado mas com a bateria carregada, numa gaveta do móvel da entrada. Como tinha o alarme programado, todos os dias úteis, às sete, sou despertado (apesar de na maioria dos dias já estar acordar) com o som distante do melodia simples do despertador. Hoje de manhã, mal o comecei a ouvir, pensei logo que na próxima quinta-feira ele vai tocar e não estar ninguém em casa para o ouvir. É esta sensação de ausência da minha própria vida que me angustia. E o receio de que as coisas mudem para sempre. Descubro, e sem muita surpresa devo admitir, que afinal eu gosto da minha vida. Quero-a assim tal e qual ela era até há umas semanas atrás, quando de maneira absolutamente inopinada (é sempre, não é?), descobri que se estava a passar qualquer coisa de errado.

Acho que, apesar de tudo, me tenho estado a safar sem muitos lamentos e súplicas cobardes. Mas fode-me verdadeiramente este sentimento de que eu era digno da cidade e ela não tinha o direito de desabar assim sobre a minha cabeça, deixando-me soterrado em toneladas de entulho.

no more tears
rosas
innersmile
A semana passada andei no YouTube à procura de um clip para homenagear a Donna Summer a propósito da notícia triste do seu falecimento. E, já agora, aquele que acho mais à altura dessa homenagem contém uma versão muito extended do que foi um dos primeiros êxitos disco, Love To Love You Baby: 17 gloriosos minutos de violinos, gemidos e orgasmos (suponho que) simulados, ao som da batida hipnótica de Giorgio Moroder (link).

Mas não foi esta canção que fui procurar na net. Devo dizer que eu, nessa altura dos meus dezasseis, dezoito anos, odiava o disco sound. Era um ódio mais militante do que visceral, mas ainda assim. Abominava os Village People, a Donna Summer, os Bee Gees versão SNF, e todos os outros artistas disco que infectavam as airwaves das rádios pop (na verdade, acho que só não odiava a Gloria Gaynor, porque nunca resisti ao apelo do I Will Survive).

Até que um dia ouvi uma canção que transformou isso tudo: era a Enough Is Enough (No More Tears), cantada pela Barbra Streisand (um adquired taste que só adquiri muitos anos depois) e pela Donna Summer, e que conjugava, digamos assim, os universos musicais de cada uma delas, com um começo lento e romântico, a la Streisand, que dá lugar a uma batida explosivamente dançável. Caiu-me no goto, uma espécie de guilty pleasure antes de o conceito ter sido inventado, e que teve ao menos a vantagem de me pôr a ouvir música de dança. Não muito tempo depois, uma canção do brasileiro Oswaldo Montenegro, acabou-me definitivamente com o preconceito contra a música de dança: “Se você dançar a noite inteira Não significa dar bobeira de manhã se alienar ou esquecer”.

Pois bem, andava eu no YouTube á procura de um clip decente com a canção Enough is Enough, e eis que descubro uma versão maravilhosa, cantada pela KD Lang e pelo Andy Bell, que, para os mais novos, fez parceria nos Erasure com o Vince Clark, um dos fundadores dos Depeche Mode (ya ya, foi ele que escreveu Just Can´t Get Enough). Confirma-se a minha teoria de que tudo aquilo em que a KD põe a garganta se transforma em ouro, não só por causa da voz dela, mas porque é a cantora que tem a maneira de cantar mais cool do mundo desde a sua formação.

Ou seja, e too cut a long story short, cá estamos a homenagear uma grande diva do disco (ah, os clichés) ouvindo um dos seus grandes êxitos cantado pela maior diva do mundo (ok duas, se considerarmos o Andy Bell).

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