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ensaio sobre a angústia
rosas
innersmile


Houve uma fase, aqui há uns anos, em que parecia que as editoras portuguesas tinham descoberto o filão da literatura de temática, ou, vá lá, de interesse homossexual. Depois lá devem ter olhado para os números das vendas e o facto é que nos anos recentes muito pouco tem sido editado, e o pouco é sobretudo na área do ensaio ou na da investigação jornalística. Esta sobretudo ligada à aprovação da lei dos casamentos para pessoas do mesmo sexo, e do debate que a precedeu, e que de vez em quando ainda recrudesce nalguns espíritos menos conformados com a danação eterna. E não acredito que não haja gente a escrever romances e outras histórias e ficções gay. Mais não seja, os autores que já publicaram obras anteriormente lá devem continuar a escrever.

É por isso que é sempre de saudar o aparecimento de um livro que coloque no centro da sua narrativa questões que tenham a ver com a condição homossexual. Que, e para despachar já a discussão, sendo condição humana, diz naturalmente respeito a todas as pessoas, da mesma forma que um romance com uma perspectiva feminina, ou judaica, ou dos habitantes do bairro de Palermo, Buenos Aires, também não pode deixar de me interessar.

Tudo isto a propósito de Ensaio Sobre a Angústia, da autoria de Joaquim Almeida Lima, editado pela Gradiva, que, apesar de não ser uma grande editora de ficção, é uma editora do mainstream, o que também não é um bom sinal. O romance conta a história de João, narrada na primeira pessoa do singular, que tem de lidar com o facto de sofrer de depressão crónica, agravada pelo processo sempre complicado de assumir, perante si e perante os outros, a sua homossexualidade.

O livro está razoavelmente bem escrito, com um bom domínio da narrativa (firme e despachada), e é uma história verdadeira, não no sentido de que tenha na sua origem acontecimentos reais, autobiográficos ou não, mas no de ser uma história que contém uma verdade sobre a vida, e que muitas pessoas se podem reflectir nessa verdade.

Só vejo duas pequenas, pequeníssimas falhas no livro, e até hesitei em as trazer para aqui porque não quero rebaixar nada o livro. Mas refiro-as apenas porque este comentário deve reflectir as impressões da minha leitura. Uma diz respeito à trama do romance, acho-a pouco intrigante, por vezes demasiado esquemática. E previsível, apesar de isto acabar por não ser propriamente uma falha: sabemos como vai acabar, e desatamos a ler depressa para ver se vai dar uma explosão bonita! E o autor tem o mérito de aguentar o suspense praticamente até à última linha.

A outra falha tem a ver com a verosimilhança cronológica. O livro é ambicioso, pretende cobrir um arco temporal demasiado alargado, e nas descrições e no contexto da história não se dá pela passagem do tempo. Ok, parece um pormenor palerma, mas como se sabe o deus das narrativas está nos pormenores (mesmo nos aparentemente palermas), e ficamos sempre com a sensação de que os trinta e poucos anos desta história decorreram em dois ou três meses.