?

Log in

No account? Create an account

vidas, lugares e tempos
rosas
innersmile


Vidas, Lugares e Tempos é uma memória autobiográfica da autoria de Joaquim Chissano, herói do nacionalismo e da independência de Moçambique, primeiro-ministro do governo de transição que levou o território dos acordos de Lusaka à independência, ministro dos negócios estrangeiros do primeiro governo do país, e presidente da república desde a morte de Samora Machel, em 1986, até 2005.

Com este currículo percebe-se que o livro de Chissano teria necessariamente de ter um enfoque político. O que de facto acontece, mas, tanto quanto é possível a um leitor mais ou menos leigo avaliar, o livro não deixa de ser surpreendente, por se tratar de um esforço aparentemente honesto de escrever, e dar testemunho, de um percurso e de uma vida.

Apesar de tal não resultar inteiramente claro, este será o primeiro volume de um conjunto de 3, e como tal abrange a infância do autor, a sua juventude, e o caminho político e geográfico que o levou do bairro da Mafalala, em Maputo, até aos escritórios da Frelimo em Dar-es-Salam, para se juntar á luta armada pela libertação de Moçambique, em 1963, com passagens por Lisboa e por Paris.

Pessoalmente a parte que mais me interessou foi a da infância de Chissano, na sua terra natal Malehice, e em João Belo / Xai Xai, na província de Gaza, e a sua adolescência na cidade de Lourenço Marques, para onde foi frequentar o liceu (Salazar, de seu nome), onde reclama ter sido o primeiro aluno negro. E interessou-me não apenas pelo que transmite acerca da vivência dos negros, quer no mundo rural quer na grande cidade, durante a ocupação colonial portuguesa, mas porque essa vivência representava como que o outro lado, a negativo da fotografia, do que foi a infância e a juventude dos meus pais.

Há um trecho do livro em que Chissano descreve as fronteiras da cidade, referindo as avenidas Craveiro Lopes e Caldas Xavier como a fronteira entre a cidade branca, de cimento, e o caniço, os bairros periféricos habitados pelos negros. Pois bem, as casas onde a minha mãe viveu durante a sua infância e juventude, e aquela que foi a primeira habitação onde eu vivi, ficava precisamente na confluência dessa duas avenidas, numa zona que o próprio Chissano refere ser habitada por brancos pobres.

O que resulta daqui é que muitas dessas vidas e lugares e tempos, e histórias que Chissano conta, têm ressonância em muitos relatos que eu sempre me habitei a ouvir da minha mãe e das minhas tias: são nomes, são referências, são hábitos, são vivências do dia a dia, que eu reconheci no livro de Chissano, apesar de ter bem consciência de que, apesar de tudo, os meus familiares viviam do lado de cá da Caldas Xavier, e que entre os dois lados da avenida havia uma ponte imensa e, na maior parte das vezes, intransponível.

o índio
rosas
innersmile


Na quinta-feira à noite, no show a que assisti, Maria Bethânia disse, entre muitos poemas que eu desconhecia, um que achei lindo e poderoso, e que me agarrou de imediato. Não sabia de quem era, é claro, mas memorizei a ideia forte do poema, e na sexta-feira procurei-o na net. Quase à hora que o encontrei, soube da notícia da morte de Bernardo Sassetti, e de alguma maneira o poema ficou marcado por essa notícia tão infeliz.

Por uma série de razões, e as piores nem sequer vêm ao caso, a semana que passou foi terrível. Passei-a sempre triste, mas, pior, passei-a em sofrimento, muito angustiado, cheio de medo da vida e do futuro. Ainda hoje de manhã, acordei de madrugada e não consegui reconciliar o sono, sempre a temer o pior que pode estar para acontecer.

O poema de Reynaldo Jardim é lindíssimo, comovente, erótico e inspirador. Descobri-lo, ouvi-lo dito por Bethânia, lê-lo e aprendê-lo (e apreendê-lo), foi uma das coisas boas que me aconteceram numa semana tão triste. Aqui o convoco, ao poema e ao seu índio, para que me acompanhe e me ajude sempre na vida.



O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.