May 11th, 2012

rosas

bethânia e as palavras

Bethânia e As Palavras, ontem, no CAE da Figueira da Foz. Ao contrário do que costuma acontecer nos shows da cantora, em que as canções têm a primazia e os textos ditos surgem como interlúdios ou sínteses, nesta leitura / apresentação, Bethânia diz, poemas mas também trechos de prosa, de autores de língua brasileira: brasileiros, portugueses, e também pelo menos um moçambicano.

Toda a apresentação (a própria cantora evita chamar-lhe show) é um encadeado de palavras, ditas ou cantadas, poemas integrais ou trechos, por vezes muito breves, que se sucedem e intercalam, uns chamando outros, referências, convocatórias, apelos, chamamentos. Alguns são reconhecíveis em Bethânia, acompanham-na desde sempre, outros são revelações (aprende-se muito neste espectáculo, só é pena o roteiro não ser distribuído pelo público, seria tão mais enriquecedor). Dois músicos, Jaime Além nos violões e Reginaldo Vargas na percussão, dão ressonância à voz.

Os temas são os de sempre em Bethânia, o sagrado e o profano, o erudito e o popular. Portugal não podia deixar de comparecer, é claro: o fado, Pessoa, Campos e Alberto Caeiro, Sophia. E José Craveirinha, com Quero Ser Tambor que nunca me soou tão certo. E que emocionante que é ouvir “o silêncio amargo da Mafalala” no palco da Figueira, dito com sotaque brasileiro.

Foi a terceira vez que vi a Bethânia ao vivo, e de todas as vezes senti que estava a participar de uma liturgia, que o palco do teatro era o altar de uma celebração misteriosa e sublime, e que alguma coisa de muito simples e essencial nos é revelado na voz da sacerdotisa.
rosas

bernardo sassetti

«O gajo tem ar de beto e é daqueles tipos que a falag não diz os égues, como o Mogais Sagmento. Mas senta-se ao piano, dobra-se para a frente, e transfigura-se, e o concerto foi das coisas mais lindas a que eu já assisti, lindo assim de um lirismo imenso e pungente, lindo como quando vamos de carro numa noite de Verão pela auto-estrada e temos a sensação de que a viagem se prolonga até ao infinito, até as luzes do automóvel se confundirem com as estrelas no céu, e nós já não sabemos se ainda somos o que somos por fora ou se somos já o nosso melhor sonho de nós próprios. Já o disco, Indigo, era muito bonito, mas ao vivo é uma experiência transcendente. Só gostava que os temas se prolongassem um bocadinho mais, fica a sensação de que ainda havia mais estrada para nos perdermos. Não sei se foi um dos concertos do ano, mas assistir ao Bernardo Sassetti a tocar ao vivo, em piano solo, foi uma das maiores experiências musicais do ano, sem dúvida.»

Foi isto que eu escrevi aqui, no dia 4 de Dezembro de 2004, a propósito da primeira vez que vi o Bernardo Sassetti a tocar ao vivo. Depois vi-o, que me lembre, em pelo menos três outras ocasiões: a tocar em trio, com Carlos Barreto e José Salgueiro, na apresentação ao vivo da banda sonora do filme Alice, e com Mário Laginha e Pedro Burmester, na série de concertos 3 Pianos. Todos eles concertos inesquecíveis

Sassetti foi, durante alguns anos, uma presença fulgurante na minha vida de ouvinte de música. De certo modo a sua música amadureceu a minha relação com a música jazz, porque raras vezes, até aí, eu tinha percebido tão nitidamente, e aceite de maneira tão natural, a linguagem do jazz, como se a sua música falasse comigo, fosse feita para mim. Para além dos concertos, ouvi-lhe, até ao limite da intensidade, os discos, sobretudo o Nocturno e o indigo, dois discos que eu adoro em absoluto. Comprei cd’s de outros músicos apenas porque contavam com a colaboração de Sassetti. Fui ver filmes apenas porque tinham a assinatura de Sassetti na banda sonora. E ainda o ano passado, um dos discos que mais me surpreendeu, e que mais ouvi, foi o que gravou em colaboração com o Carlos do Carmo.

Por todas estas razões, ainda estou aqui aflito, a tentar perceber algum sentido na morte absurda de Sassetti. Mas a sua perda, é claro, ultrapassa muito o choque que eu, como certamente muitos e muitos admiradores da sua música, estou a sentir. Bernardo Sassetti era um dos maiores músicos portugueses, um nome incontornável do jazz nacional, mas que não se cingia às barreiras do género. Tocava muito e com muita gente. Era, como são quase sempre os músicos de jazz, de uma generosidade sem limites, e ainda por cima de uma generosidade viva e entusiasmada. Era um compositor genial, como o atestam, por exemplo, as suas obras para o cinema, meio que o atraía especialmente. Tal como a fotografia, cujo gosto e entrega parece estar na origem do acidente que o vitimou.

Eu sei que já é um pouco um lugar comum, mas suponho que raras vezes faça tanto sentido dizer, com o poeta, que "morre jovem o que os deuses amam".