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Em Janeiro de 1985, na primeira avaliação que fiz após terminar os tratamentos contra o cancro, fui referenciado pelo meu médico para uma consulta num hospital neurológico em Wimbledon, no sul de Londres, porque estava a sofrer de uma perda muscular severa nas pernas, sobretudo na esquerda, que já me obrigava a utilizar uma canadiana como auxiliar de marcha. O diagnóstico foi de que se tratava de uma consequência dos tratamentos de cobalto e quimioterapia, porque havia tecidos fibrosados que provocavam compressões neurológicas, particularmente do nervo ciático. E o prognóstico não era famoso: não havia tratamento cirúrgico ou medicamentoso, provavelmente a doença iria progredir de maneira sempre mais incapacitante, e que só havia duas coisas que eu podia fazer para contrariar essa progressão, já que a recuperação era pouco provàvel: fisioterapia e natação.

Mal regressei a Coimbra, atirei-me à água, e durante praticamente dois anos, fui à piscina todos os dias. De tal modo ganhei o vício, que, com algumas interrupções pelo caminho, continuo a nadar e a ser dependente das minhas braçadas. Tive na altura um professor de natação, da geração e da criação dos meus pais, que me ajudou imenso, apesar de confessar que tinha um pouco de receio do meu mau-feitio matinal, nomeadamente do olhar zangado com que eu todas as manhãs lhe aparecia à frente.

Entretanto fui a um ginásio de fisioterapia que a minha mãe já tinha frequentado, e comecei a fazer tratamentos com um fisioterapeuta. Passadas algumas semanas, ele deixou de trabalhar nessa clínica e eu tratei de me mudar para o hospital onde ele trabalhava. Durante meses, a minha rotina era essa: acordar às sete, ir para a piscina, vir a casa mudar de roupa e comer, e ir para o hospital fazer fisioterapia. Só depois, lá para as onze, ia para a faculdade.

Foi uma guerra incrível. Quando comecei, praticamente já não conseguia fazer movimentos com a perna esquerda, que estava completamente desprovida de músculo, era literalmente só pele e osso. Já precisava de duas canadianas para poder caminhar, e estava sempre a cair, quer por falta de força quer porque fiquei com muitas dificuldades de equilíbrio. Nesta guerra, o meu fisioterapeuta foi a pessoa determinante. Todos os dias, durante meia hora ou quarenta e cinco minutos, suávamos ambos a fazer força para a perna mexer. Porque os exercícios eram de mobilização e por isso eram feitos com a sua participação.

Durante semanas e semanas o resultado foi nulo. Até que um dia ele sentiu uma certa tensão e o músculo da perna, o quadricípete, que é o músculo que faz a extensão da perna, a vibrar. Foi uma algazarra. Chamou os colegas todos para virem testar, para comprovar que o que ele estava a sentir era mesmo real. Daí para a frente, o progresso foi notável. O músculo começou a crescer, e passado pouco tempo eu estava a andar. Quando em Julho voltei ao hospital de Wimbledon, já a caminhar sem auxílios, o médico ficou espantado com a recuperação.

Continuei com a fisioterapia durante mais tempo, ao todo deve ter chegado perto dos dois anos. Mesmo depois de ter alta, que me foi dada contra a vontade do meu fisioterapeuta, continuei a encontrar-me com ele, numa clínica privada, mas a custo zero, para me ir fazendo avaliações. Mais tarde, já eu trabalhava, os nossos caminhos foram-se cruzando por razões profissionais. Há muitos anos que não nos víamos, e eu ultimamente lembrei-me muitas vezes de que devia ir falar com ele para saber a sua opinião acerca das dificuldades de marcha que voltei a sentir nos últimos tempos.

Ontem tive a notícia, brutal, da sua morte. Vítima de uma daquelas doenças súbitas e fatais que às vezes dão em pessoas que, à partida, não teriam nem a idade nem a condição física para as sofrer. Fiquei tristíssimo, com um sentimento de perda quase insuportável. Descobri que, afinal, somos praticamente da mesma idade, pois sempre achei que ele fosse razoavelmente mais velho do que eu, tal era o desequilíbrio de forças durante o tempo em que nos relacionámos, e por causa do tipo de relação que tivémos. Durante todos estes anos, e já lá vão quase trinta desde que nos conhecemos, e mesmo durante todo o tempo em que não nos vimos, o meu sentimento de reconhecimento pelo que ele fez por mim, manteve-se sempre intacto. Tal como a minha admiração. Se há heróis da vida real, o João era um dos meus. E há-de sê-lo para sempre.