May 7th, 2012

rosas

le jour de gauche

A vitória de François Hollande nas eleições presidenciais francesas de ontem significa o regresso dos socialistas ao Eliseu, desde 1995, quando Mitterrand, doente de um cancro que o vitimaria menos de um ano depois, terminou o seu segundo mandato, e Jacques Chirac ganhou as eleições a Lionel Jospin.

Claro que Hollande não vai ter um mandato fácil, e as hipóteses de fracassar não são desprezáveis, numa Europa dominada pela insanável contradição de ter se defender de um ataque implacável e mortal ao Euro, e as políticas económicas que apenas a fragilizam ainda mais face a esses ataques.

Mas temos, apesar disso, o direito a um módico de esperança de que esta vitória possa trazer um novo ciclo para a Europa. Temos, para já, ao menos, a alegria de assistir ao fim do infame Merckozy, que dominou a política europeia nos últimos anos, arrastando a sua economia para a ruína, com o sacrifício absurdo dos países, como o nosso, com economias mais frágeis e vulneráveis.

Mas o que me trouxe ao texto, mais do que o resultado das eleições, foi salientar o papel da imprensa nestas eleições. Foi extraordinário acompanhar o entusiasmo e o compromisso dos principais jornais franceses, nomeadamente do Libération, que nunca escondeu, ‘au contraire’, o seu entusiasmo pela possibilidade do regresso da esquerda ao poder em França. Ontem à noite, quando a vitória de Hollande era já uma certeza, o site do Libé titulava a notícia com a frase “le jour de gauche est arrivé”, socorrendo-se de um trocadilho com a letra do hino nacional gaulês..

Esta atitude comprometida dos jornais (o Figaro, à direita, fez campanha por Sarkozy) pode parecer-nos estranha, já que em Portugal os principais órgãos de informação juram e trejuram pela sua imparcialidade no campo do debate político, como garante das suas objectividade e seriedade. Claro que, como estamos fartos de saber no nosso país, essa pseudo imparcialidade apenas serve para dissimular o manhoso tráfico de influências entre os media e os políticos. É que se a imparcialidade parece ser um valor importante para um órgão mediático, muito mais essencial deveria ser o valor da honestidade e da frontalidade. Quem compra o Libé, sabe ao que vai. Quem compra um qualquer dos grandes jornais portugueses nunca consegue discernir bem o que é notícia do que é manobra e manipulação.