May 3rd, 2012

rosas

fernando lopes

Aplica-se o lugar comum: a morte de Fernando Lopes é uma enorme perda para a cultura portuguesa. Lopes foi um dos seus maiores cineastas, e a sua obra ficará na história do cinema português como uma das mais notáveis e importantes.

Vi muitos filmes de Fernando Lopes. Não todos, mas grande parte. Fez maus filmes, é verdade, ou se calhar filmes falhados, mas tem longas metragens belíssimas e inesquecíveis. É autor de pelo menos dois grandes clássicos, Uma Abelha na Chuva e Belarmino (que só vi em televisão), e de mais uma mão-cheia de narrativas marcantes, quer para o cinema quer para a própria realidade nacional (lembro-me, por exemplo, de Nós Por Cá Todos Bem ou de Matar Saudades, mas também de Delfim ou de Fio do Horizonte). Deixa ainda uma obra documentarista notável de que são exemplo Belarmino, é claro, mas também Lissabon Wuppertal Lisboa, por exemplo.

Para além do cinema, Fernando Lopes fez ainda obra na televisão. Filmes, documentários, programas, mas quem tem idade e memória lembra-se que Lopes foi responsável, em finais dos anos setenta ou inícios de oitenta, pelo arranque do segundo canal da RTP como canal autónomo em relação ao primeiro, com filosofia e programação própria. Foi porventura das épocas mais entusiasmantes da televisão em Portugal.

Mas Fernando Lopes foi mais do que o lugar comum. Para quem, como eu, o conhecia apenas do espaço público, era impossível ficar insensível à sua cultura, à bonomia, ao discurso (e à voz sedutora), à empatia que era feita tanto de envolvência como de alguma distância irónica. Além disso, sempre tive uma ideia de Fernando Lopes ligada a uma certa boémia, uma boémia literária, feita de noite, copos e livros. E lisboeta. Com a morte de Lopes, é também uma hipótese de Lisboa que vai desaparecendo, e nessa medida um certo Portugal. O país, geográfico mas sobretudo imaginário, de José Cardoso Pires, e também o de Alexandre O’Neill, ou de Gérard Castello Lopes ou mesmo o de Antonio Tabucchi. Todos nomes com quem, não certamente por acaso, a obra de Fernando Lopes se cruzou.