May 2nd, 2012

rosas

queer



Tenho que começar com uma confissão. Entre os autores da chamada beat generation, sempre gostei muito do Allen Ginsberg, sempre achei que o Jack Kerouac era muito sexy, e sempre senti uma certa aversão pelo William S. Burroughs. Razão porque cheguei a este momento sem nunca ter lido nada dele. Isto não obstante ter uma admiração imensa por pessoas que têm nele uma incontornável referência (estou a lembrar-me, por exemplo, da Laurie Anderson, mas podiam ser aqui invocados dezenas de nomes da cultura popular).

Li agora, finalmente, e por empréstimo, Queer, uma obra anterior a algumas que mais notoriedade e caução literária trouxeram ao autor (nomeadamente o Naked Lunch), apesar de ter sido publicada muito posteriormente. Trata-se de uma obra relativamente breve, mais uma novela do que um romance, quer pela extensão quer pela estrutura, localizada no México e noutros países de América Central e do Sul, passada num meio de expatriados norte-americanos, e que relata o modo como um homem, que acabou de se libertar da dependência das drogas, vive o seu desejo erótico, sobretudo aquele que sente em relação a um amigo, seu compatriota, que não retribui a atracção.

Houve duas coisas que me impressionaram muito no livro. A primeira é o domínio da escrita de Burroughs. Mais do que um mestre da narrativa, trata-se de um rigoroso domínio da palavra, da frase e da sua sintaxe, todas de uma perfeição que tem alguma coisa a ver com poesia. Não que se trate de escrita poética, nada disso, mas antes no sentido em que cada frase parece depurada e trabalhada até cristalizar naquela forma em que se oferece aos leitores.

Relacionado com isto, mas mais abrangente, impressionou-me ainda a noção de que William S. Burroughs é um verdadeiro escritor, um homem completamente comprometido com a escrita, não como uma profissão, mas mais como uma espécie de compromisso vital. É até um pouco assustadora, a ideia de que alguém exista como escritor quase na medida em que ser escritor fosse a personagem de um livro: ‘eu escrevo porque só existo enquanto escritor’. Não consigo explicar melhor o que quero dizer com isto, porque mais do que uma tese é qualquer coisa de impressivo, como se ao ler o livro eu percebesse que o William Burroughs não existe para além da persona de escritor que encarnou.

Outra coisa que quero referir é que apesar de este livro ter um discurso muito simples e linear, longe das experiências mais radicais de transformação da escrita e da escrita como torrente da consciência, a que o autor se dedicaria posteriormente, o texto é muito incisivo e insinuante, toma-nos e instala-se, mexe com a nossa sensibilidade e perturba as nossas emoções.