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this must be the place 4*
rosas
innersmile
Há uma certa obsessão em alguns realizadores de cinema europeus (ou nos realizadores de algum cinema europeu) em irem fazer road movies para a América. Um realizador mais ou menos obscuros faz um filme que consegue obter alguma notoriedade, há produtores norte-americanos que se interessam (ou um actor que gostou muito do filme, ou mesmo um membro de um júri de um concurso de cinema em que o filme passou), e pronto!, lá vai ele estrada fora, armado em Wim Wenders dos anos oitenta, à procura do seu 'Paris Texas'. São incontáveis os exemplos.

Paolo Sorrentino foi mais um a sucumbir ao sonho do road movie americano. This Must Be The Place é um filme curioso, que não chega a ser bizarro, mas é um daqueles objectos muito particulares, capazes de suscitar algum culto, falhados, claro, mas que vale a pena ver, e perceber melhor de que matéria é feito algum cinema.

Projecto pessoal, feito de colaborações que se adivinham ser intuitu personae, como se dizia nos direitos, e será assim, digo eu, que se explica o envolvimento de Sean Penn ou de David Byrne. Quanto a este, e para o despachar já, para além de uma pequena participação as himself no filme, assina, e de que maneira, a banda sonora, em parceria com Will Oldham (AKA Bonnie 'Prince' Billy). De resto o próprio título da película é tributário de uma antiga canção dos Talking Heads, que Byrne interpreta ao vivo durante o filme, numa espécie de recriação de Stop Making Sense.

Vale a pena resumir a história do filme: Cheyenne, uma velha vedeta da pop dos anos oitenta, cujo look é muito inspirado no Robert Smith dos The Cure, afastado dos palcos e angustiada com os efeitos nocivos que a sua música produziu entre jovens fãs da banda, decide sair do retiro anónimo onde vive em Dublin, para ir visitar o pai, com quem não está há trinta anos, e que vive nos Estados Unidos. Ao chegar à América, descobre que o pai já morreu, e que carregou toda a vida a angústia de ter sido prisioneiro dos campos de concentração nazi, atormentado em particular pela memória de uma determinado criminoso de guerra, cujo rasto foi perdido na própria América. Cheyenne torna-se no mais improvável nos caçadores de nazis e percorre a América atrás da sua presa.

Uma das razões porque o filme é falhado (ainda que em certos momentos o seja de uma forma muito bela, e com um argumento muito bem escrito, por vezes mesmo brilhante) é também habitual nestas fitas: a vontade de pôr lá muita coisa, de não deixar de fora nenhum daquelas notas que ao longo dos anos fomos apontando nos moleskines da vida.

A outra tem a ver com a personagem de Cheyenne. Sean Penn faz, como não poderia deixar de ser, um fabuloso trabalho de composição. O problema é que temos um certa dificuldade em acreditar naquela personagem, não tanto por causa da sua bizarria, mas muito simplesmente porque não parece verdadeira. Não no sentido de que tenha de ter uma qualquer caução de verosimilhança (e o cinema como se sabe, é o maior exemplo de personagens em que acreditamos cegamente apesar de serem totalmente inverosímeis), mas de que a própria personagem tem de nos convencer da sua verdade, tem de nos fazer acreditar, nela e na sua missão.

Só mais uma notazinha para dizer que entre as coisas boas do filme contam-se mais algumas presenças no ecrã que, por serem raras, são mais saborosas, nomeadamente a Frances McDormand, o Judd Hirsh (saudades de Dear John e, muito lá atrás, de Taxi, duas sitcoms inesquecíveis) e o sempre admirável Harry Dean Stanton (alguém aqui mencionou o Paris Texas?)
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