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A ARANHA

Esta noite tive um sonho com aranhas. Tenho a impressão de que sonhar com aranhas deve ter um daqueles significados muito óbvios, que vêm nos artigos de auto-ajuda das revistas frívolas, mas francamente desconheço qual seja. Mas para além desse significado mais, digamos assim: objectivo, o sonho está cheio de referências à minha vida e ao momento que estou a atravessar. Faz-me acreditar que realmente os sonhos são metáforas que o nosso subconsciente cria para lidar com a realidade.

O sonho passava-se na casa dos meus tios em Nampula, e devia ser uma ocasião festiva, pois a casa estava cheia de família e amigos. Havia muitas aranhas na casa, pequeninas, e eu às tantas descubro que uma delas anda sempre atrás de mim. Para onde quer que eu vá, uns momentos depois aparece ela, suave e determinada, a vir ter comigo. Não há nisto propriamente uma ameaça, mas nunca deixo de ter a impressão de que a aranha anda atrás de mim para me comer.

A aranha ora vai aumentando de tamanho ora regressa ao seu tamanho de aranha pequena, castanha, muito brilhante. Decido primeiro ignorá-la e não me afasto quando ela aparece. Reparo então que a aranha está agarrada à minha sapatilha do pé direito. Tenho de fazer um certo esforço a andar porque entretanto a aranha aumentou de tamanho e, presa no calcanhar, já rodeia todo o sapato com a suas patas. Sinto aliás a pressão das pontas das patas a apertarem-me a parte anterior do pé e os dedos. Tento sacudir a aranha, empurrá-la com o outro pé, mas não consigo.

Alguém, talvez o meu irmão, não tenho a certeza, me diz para descalçar a sapatilha, e é isso que eu faço. Vou para a sala da casa, que ficava na parte da frente, voltada para a avenida, sento-me, e passado um bocadinho lá aparece a aranha, devagarinho, nos seus passinhos leves e eficazes. Decido então não a ignorar e olho directamente para ela, que, nesse momento, tem a forma de um boizinho castanho, com um badalo vermelho à volta do pescoço, e parece feito do mesmo plástico duro de que são feitas as miniaturas dos bonecos da televisão.

Quando chega ao meu pé, já tem outra vez a forma de aranha, pequena e incansável. Consigo enfiar a aranha, e dezenas de outras, num frasco que está até meio de umas bolinhas verdes, peludas, e vou à casa de banho esvaziar tudo na retrete e descarrego o autoclismo. A sanita fica cheia e começa a transbordar, mas não me preocupo muito com isso porque tenho a impressão de que a aranha foi cano abaixo.

Volto para a sala e passados uns momentos a aranha está de volta, no seu deslizar de onda mansa a subir na areia. Volto a olhar directamente para a aranha que nesse momento é uma águia pequenina, do tamanho dos bonecos de plástico, cinzenta, com a cabeça azul e amarela. Junta-se a mim uma série de pessoas e a Cláudia pega nuns jornais que atira por cima da aranha que é águia, e leva tudo para fora da casa, pela porta grande da frente. Penso que seria bom que ela matasse a aranha, mas não percebo muito bem como é que o conseguirá fazer, já que a águia apesar de tudo não é tão fácil de pisar como uma aranha.

Passado uns momentos, olho discretamente lá para fora, e vejo a Cláudia, do outro lado da avenida, a desfazer-se da aranha. Por entre o velado das cortinas das janelas, e apesar dos carros estacionados, um deles vermelho, consigo ver a parte superior do corpo da Cláudia. Adivinho pelos seus movimentos que está de facto a fazer um grande esforço para tentar pisar a aranha e matá-la.
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"Guayaquil is built along a river, a city with many parks and squares and statues. The parks are full of tropical trees and shrubs and vines. A tree that fans out like an umbrella, as wide as it is tall, shades the stone benches. The people do a great deal of sitting.

One day Lee got up early and went to the market. The place was crowded. A curious mixed populace: Negro, Chinese, Indian, European, Arab, characters difficult to classify. Lee saw some beautiful boys of mixed Chinese and Negro stock, slender and graceful with beautiful white teeth.

A hunchback with withered legs was playing crude bamboo panpipes, a mournful Oriental music with the sadness of the high mountains. In deep sadness there is no place for sentimentality. It is as final as the mountains: a fact. There it is. When you realize it, you cannot complain.

People crowded around the musician, listened a few minutes, and walked on. Lee noticed a young man with the skin tight over his small face, looking exactly like a shrunken head. He could not have weighed more than ninety pounds.

The musician coughed from time to time. Once he snarled when someone touched his hump, showing his black rotten teeth. Lee gave the man a few coins. He walked on, looking at every face he passed, looking into doorways and up at the windows of cheap hotels. An iron bedstead painted light pink, a shirt out to dry... scraps of life. Lee snapped at them hungrily, like a predatory fish cut off from his prey by a glass wall. He could no stop ramming his nose against the glass in the nightmare search of his dream. And at the end he was standing in a dusty room in the late afternoon sun, with an old shoe in his hand."


- William S. Burroughs, QUEER (Penguin)