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25 de abril
rosas
innersmile
Simpatizo com os motivos invocados pela Associação 25 de Abril para fundamentar a sua ausência das comemorações oficiais da revolução de 1974. Mais grave do que a austeridade e os sacrifícios que os portugueses têm feito, é o modo como esses sacrifícios têm sido impostos. Com total desrespeito pela lei e pelos direitos nela consagrados. Com absoluto desprezo pelas regras de funcionamento do sistema democrático. Criando um sentimento de culpa nas pessoas e de facto responsabilizando-as pelos insucessos da economia. Tratando-as com arrogância, e menosprezando, por vezes de forma insolente, o seu sacrifício e o modo sereno como tem enfrentado enormes dificuldades. Acho abominável, e profundamente anti-democrático, um governo que considera os seus governados um bando de malandros e preguiçosos, culpando-os sempre de tudo, principalmente dos seus próprios falhanços e dos efeitos desastrosos das suas políticas.

Acredito, por todas estas razões, que a democracia tem sido vítima de sérios atropelos, que está periclitante, e que o seu futuro é, no mínimo, perigoso. De certo modo, apenas a liberdade de expressão, que apesar das pressões e dos jogos de poder se mantém no essencial, salva o regime democrático português. Todos os outros direitos e liberdades, consagrados na constituição, tem sido, em maior ou menor extensão, postos em causa. Até a soberania nacional, nas mãos de um governo fantoche e mentecapto, está hipotecada a funcionários tecnocratas de organizações internacionais, cuja acção não está sujeita a qualquer forma de escrutínio ou sufrágio.

No entanto, discordo totalmente da decisão da Associação 25 de Abril de não participar nas comemorações oficiais do 25 de Abril, no Parlamento. Note-se que os militares de Abril, por demais meritório que tenha sido o seu papel na história do Portugal de Abril, não são garantes nem salvaguarda de nada. Não lhes cabe, felizmente, nenhum papel no funcionamento do sistema político e constitucional português. A decisão de não comparecer nas cerimónias é meramente simbólico, e, como é evidente, o valor do símbolo depende sempre de duas leituras, a que lhe é impressa por quem o usa, e a que é percebida por quem o lê. Não deixa, por isso, de ser sempre ambíguo.

Com este gesto simbólico, a Associação perde, porque, julgo eu, e ao contrário da sua expectativa, o valor do símbolo não se reforça, e corre até o risco de se dissipar. Mas perde sobretudo a democracia, e os portugueses através dela. O 25 de Abril, afastados, ainda que por sua vontade, os seus principais protagonistas, passa a ser uma solenidade esvaziada de sentido, de conteúdo e sobretudo de alegria. O 25 de Abril fica entregue àqueles que precisamente queremos criticar.

Porque não há outras leituras, e das duas uma: ou o governo de Portugal é legítimo, porque constitui o resultado da expressão popular através de eleições livres, e então nada do que ele faça pode não nos dizer respeito; ou as suas políticas são tão antidemocráticas que põem de facto em causa essa legitimidade. Se for esse o caso, então é mesmo melhor chamar o Otelo.
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uma viagem à índia
rosas
innersmile


Li, há muitos anos, um dos primeiros livros que Gonçalo M. Tavares publicou, se não mesmo o primeiro. Para falar com franqueza, Livro de Dança não me seduziu muito, e nunca mais insisti. Entretanto, GMT publicou dezenas de livros, recebeu inúmeros prémios, e tornou-se a coqueluche da literatura portuguesa actual, sobretudo entre os críticos literários. Andava já há tempos com vontade de reincidir, e o facto de me terem oferecido Uma Viagem à Índia foi a oportunidade perfeita.

O livro apresenta-se como uma epopeia, ou uma anti-epopeia, que toma Os Lusíadas como referencial, narrando a viagem de Bloom, o protagonista, até à Índia e regresso. Surpreendeu-me muito o humor, não estava à espera, e que oscila entre um burlesco quase chaplinesco e um registo mais subtil e ligeiramente irónico que não poupa as fragilidades do nosso tempo civilizacional.

O tom é profundo e muito filosófico, alternando passagens de uma leitura muito límpida com outras em que o sentido parece muito fechado no próprio texto. A leitura não é propriamente fácil, e dada a forma esparsa como as peripécias desta viagem nos são apresentadas (apesar de elas não faltarem , com mortes e assaltos e cenas de sexo, por exemplo), por vezes é mesmo um pouco árida.

Não sei se tão cedo regressarei a este autor, porque o esforço de concentração se torna um pouco cansativo, sobretudo para quem persegue na leitura um simples princípio de prazer, mas de qualquer forma gostei mais do que estava à espera.