April 22nd, 2012

rosas

linha vermelha 4*

Fui ver na sexta-feira Linha Vermelha, um documentário que José Filipe Costa fez sobre Torre Bela um outro documentário famoso dos tempos do verão quente de 1975. Em Abril desse ano, e nos meses que se seguiram, o alemão Thomas Harlan filmou a ocupação da herdade da Torre Bela, dos Duques de Lafões, nos arredores de Lisboa, e a criação da cooperativa agrícola da Torre Bela, transformando-a num símbolo da revolução e do poder popular.

Agora, tantos anos passados, José Filipe Costa revisita lugares e protagonistas, tanto os da ocupação como os da equipa que trabalhou com Harlan. O que mais surpreende em Linha Vermelha é a sua capacidade de questionar, o modo como põe tudo em causa. Não no sentido ideológico do termo, de criticar ou ‘dizer mal’, de ser do contra, mas no sentido mais puro da expressão: pôr questões, interrogar e interrogar-se, obrigar-nos a pensar de forma crítica sobre acontecimentos que, para o melhor ou para o pior, marcaram a história recente de Portugal.

Num nível mais imediato, a ‘vítima’ do filme de José Filipe Costa não pode deixar de ser Thomas Harlan e o seu filme. Linha Vermelha põe em causa (já o título, que é retirado de um trecho de Torre Bela, enuncia ao que vem) o olhar da câmara de Harlan, questionando se ele se limitou a olhar os acontecimentos, ou se, pelo contrário, os tratou como argumento do seu próprio filme, forçando o seu curso apenas para poder dispor de material fílmico.

No entanto, é importante realçar que Linha Vermelha vai muito mais longe, e muito mais fundo, do que isto. E é não tanto o curso da revolução (ou de um aspecto desta) que José Filipe Costa escalpeliza com o seu filme, mas muito mais, e se calhar muito mais interessante do ponto de vista histórico (já que não faz grande sentido perguntar hoje pela bondade das ocupações tão fruto do contexto elas foram), sobre as imagens que foram construídas dessa revolução, e sobretudo sobre a imagem que nós próprios, enquanto país, enquanto memória nacional, construímos sobre a revolução com base nessas imagens.

E posso garantir que neste aspecto Linha Vermelha é de uma eficácia a toda a prova. Saímos do cinema verdadeiramente inquietos, e muito estimulados a pensar de modo crítico sobre o que foi a nossa revolução. E principalmente muito intrigados connosco próprios. Quem somos nós, nós os que temos memória dos acontecimentos porque os vivemos ou os ouvimos contar; quem somos nós, o povo que fez a revolução, de enxada numa mão e copo de vinho na outra, sentado à volta de uma mesa onde um busto de Lénine ponteia a discussão sobre como se constrói uma utopia.