April 16th, 2012

rosas

manual de pintura e caligrafia



Manual de Pintura e Caligrafia, não sendo o primeiro livro que José Saramago publicou, nem sequer o primeiro romance, foi todavia o primeiro da sua fulgurante presença na literatura portuguesa, que o levaria, não tanto à estratosfera do Nobel, mas sobretudo ao conjunto de romances que constituem obras-primas da literatura universal.

É para se ver como sou velho: lembro-me de ver o livro à venda na montra da NovAlmedina, ali à Ferreira Borges, e de me deixar encantar com o título. Não foi porém o primeiro livro que li do autor, esse foi o Memorial, e pouco depois o Ano da Morte de Ricardo Reis, que me conquistaria definitivamente para a escrita de Saramago. Agora, mais de trinta anos depois, quase trinta e cinco, chegou finalmente a vez de o ler.

E que tal? A primeira nota é que se trata de um romance tosco. Desorganizado, desequilibrado, com variações sinuosas de ritmo, perdido à procura de um tema. É um projecto, mais do que um romance. E ainda muito longe da escrita exuberante e implacável a que nos habituámos (se não se tratasse da obra de um homem que já tinha dobrado os cinquenta, quase se poderia dizer que se trataria de uma obra de adolescência. E daí.)

E no entanto, é um livro irresistível, sedutor e apaixonante. Por várias razões, e uma delas é pela presença muito próxima do autor. O estilo autobiográfico do livro a servir a pessoa de quem o escreveu, a dar-lhe a régua e o contraponto para o balanço de uma vida (ou de meia vida, como se provaria depois): o contexto social e político, a analogia profissional, a radical opção pela escrita, as reflexões aturadas mas sobretudo as questões, as dúvidas, as perguntas, as hesitações.

Tudo isto faz com que o Manual seja um livro de extrema ternura, mas há mais. O que é assombroso neste livro é assistirmos, ao longo das páginas, ao nascimento do Saramago narrador, àquela voz literária que lhe deu o estofo do grande escritor e o tornou único. No seus momentos mais frágeis, é ainda o escritor que escreve o seu livro. Nos melhores, é já o narrador que comanda a mão que escreve.

Não sendo um livro para amadores em Saramago, ou pelo menos para principiantes, trata-se, ao menos por estas razões, de um livro indispensável para os amantes e iniciados.