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tabu 5*
rosas
innersmile
O cinema português é uma questão complicada. Durante alguns anos, when I was young, via militantemente todos os filmes nacionais que chegavam às salas, e defendi a sua qualidade. Depois o entusiasmo passou-me e praticamente passei apenas a ver filmes de alguns realizadores ou que me despertavam algum interesse especial. Ainda hoje é isso que acontece, mas são cada vez mais raros os casos de filmes portugueses que me levam à sala.

E não é por preconceito (ou se calhar é, enfim). Não discuto se os filmes portugueses são bons ou não, se são obras artísticas ou pastelões enfadonhos. O que eu acho é que eles não são eficazes a passar a sua mensagem, seja ela qual for. Um filme, como qualquer história que se conta, tem de encantar, de prender a atenção de quem está a ver ou a ouvir ou a ler a narrativa, e que, por qualquer razão, aceita suspender a sua vida, a sua relação com a realidade circundante, para se focalizar apenas nela. Como disse, seja qual for a razão: eu prendo-me a uma história porque ela é inspiradora ou porque me distrai, porque o tema me interessa ou porque é nova para mim, mas também me prendo apenas porque a maneira como ela me está a ser contada me seduz, porque me deixo seduzir pelas palavras, pelas imagens, ou mesmo apenas pela voz que ma está a fazer chegar.

Tabu, o mais recente filme de Miguel Gomes (depois do entusiasmo que foi Aquele Querido Mês de Agosto), parecia à partida ter tudo para não resultar. Uma narrativa descontínua, com elementos fantasistas quando não mesmo bizarros, opções formais que à partida pareceriam não facilitar a vida a quem o visiona, particularmente a opção pela voz off em vez dos diálogos durante parte significativa do filme (e a mais significativa), ou mesmo a opção pelo preto e branco.

E no entanto resulta na perfeição, e é um dos filmes mais entusiasmantes que tenho visto recentemente, nomeadamente no que se refere ao cinema nacional. Porque o filme é de uma eficácia narrativa à prova de bala, por muito improvável que isso parecesse à partida. É fácil apontar alguns dos elementos que fazem o sucesso de Tabu. Em primeiro lugar, na minha opinião, a qualidade do texto, suficientemente formal para nos chamar a atenção, mas sempre muito perto de um registo de coloquialidade e oralidade capaz de nos manter atentos. Esta escrita primorosa é evidente ao longo de todo o filme, mas é o grande trunfo da segunda parte, Paraíso, na qual toda a história nos é narrada em voz off. E a voz de Henrique Espírito Santo faz o resto, emprestando ao relato um sortilégio de flauta mágica.

A imagem e som são outros pontos altos do filme. A fotografia é lindíssima, um preto e branco que ora é muito contrastado, por exemplo nas cenas de interiores e de uma maneira geral em toda a primeira parte, ora é um pouco difuso, acrescentando sortilégio a uma história já de si misteriosa. Outro aspecto notável é o humor, o filme é muito divertido, está cheio de uma ironia muito subtil, e que é toda dirigida ao espectador, nunca interferindo nas personagens e nos seus dramas, e por isso nunca as fazendo tropeçar nele.

E depois, claro, há a presença de África. O filme foi filmado na região do Gurué, uma zona montanhosa no noroeste de Moçambique, uma paisagem que eu conheci quando era miúdo e que reconheci no filme. Além disso abundam os sinais e as referências (como aliás já acontecia em Aquele Querido Mês de Agosto), e mesmo as citações, sendo a mais óbvia de todas, carregada de ironia, a que faz a transição da primeira para a segunda parte: ela tinha uma fazenda em África, no sopé do monte Tabu, a ecoar as famosas palavras iniciais de uma outra narrativa africana igualmente protagonizada por uma mulher aventureira e romântica.

Como disse no início, o filme, apesar de improvável, é eficaz. E essa eficácia, tal como a sua estranheza, reside no facto de o filme ser um melodrama verdadeiramente reinventado, mas rigoroso na utilização dos códigos do género. E é esse apelo do melodrama, irrenunciável e irresistível, que transforma Tabu numa das mais extraordinárias películas que já se fizeram em Portugal.
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