April 4th, 2012

rosas

o cerco a leningrado

Não se pode perder uma oportunidade de ver a Eunice Muñoz trabalhar ao vivo, e foi essa a razão principal que me levou ontem á noite a TAGV, ver O Cerco a Leningrado, um texto do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra encenado por Celso Cleto.

Trata-se de uma comédia com um fundo político. Duas actrizes resistem à decadência de um velho teatro ameaçado de demolição, o que resta de o projecto de um dramaturgo e encenador, marido de uma e amante da outra, com uma marca política muito acentuada e típica de um certo teatro muito em voga nos anos 70 do século passado (a peça, tanto quanto julgo saber, é de 1994). O tema dava para um exercício de sarcasmo com uma dose razoável de crueldade, mas Sanchis Sinisterra prefere encaminhar, com alguma ternura, o seu texto para o campo das recordações, das ilusões perdidas, concluindo que por muito que o teatro seja ilusão e fantasia, ele é sempre uma forma de realidade.

A encenação é funcional, e o destaque vai, como é claro, para as actrizes, em particular para Eunice Muñoz. Eunice faz sempre bem, e é sempre uma emoção ver o seu trabalho, a naturalidade que empresta à representação, que não é fazer de conta, mas é sempre uma naturalidade teatral, de quem está a pisar as tábuas e a projectar-se para a plateia. Este não é, apesar da simpatia da peça, um papel muito exigente, e não dá a Eunice a oportunidade de fazer um trabalho excepcional, como tem sido hábito. Maria José Paschoal, por seu lado, parece até uma actriz mais moldada ao papel e ao texto da peça.