?

Log in

No account? Create an account

normal
rosas
innersmile


"Algumas coisas nunca voltam ao normal (...) Temos sorte quando elas continuam a funcionar, mesmo defeituosas."

- Luiz Alfredo Garcia-Roza, PERSEGUIDO (Companhia das Letras)

cunha
rosas
innersmile
Hoje é um daqueles dias em que eu gostava de acreditar em deus para lhe meter uma grande cunha.

Conheço a F há mais de trinta anos, desde que vim viver para Coimbra em finais de 1977. Eu era um catraio, e a F, apesar de pouco mais velha do que eu, era colega de trabalho dos meus pais, o que me fazia vê-la como uma adulta. Hoje, é claro, temos praticamente a mesma idade. Nunca nos perdemos um do outro, e mesmo depois dos meus pais deixarem de trabalhar, ela foi dos poucos colegas deles que manteve sempre contacto e uma relação de amizade connosco.

Há uns meses foi diagnosticado um cancro à F. Foi operada, fez uma colostomia, e iniciou tratamentos de quimioterapia. Temo-nos encontrado muitas vezes. Ela ia ter comigo sempre que tinha consultas, e eu ia sempre conversar um bocadinho quando estava a fazer quimioterapia. A sua fragilidade física, e a coragem com que encarou a situação e os tratamentos, fizeram-me ligar ainda mais à F nestes últimos tempos, além de que ela liga muitas vezes à minha mãe para encontrar apoio e carinho.

Há duas semanas, depois de terminar a quimioterapia, a F foi novamente operada, para terminar a remoção do tumor e para reconstruir o trânsito intestinal. A operação aparentemente tinha corrido bem, mas foi uma intervenção muito pesada e a recuperação foi muito difícil. Esta semana a coisa parecia que estava finalmente a começar a recompôr-se, mas no fim da semana a situação agravou-se muito.

A F foi hoje novamente operada de urgência, aparentemente fez uma peritonite e o seu estado é reservadíssimo. Foi ela própria, apesar da fraqueza extrema, que hoje de manhã ligou desesperada à minha mãe a dizer-lhe que ia ser operada. Consegui há pouco ter notícias, mas muito poucas, vagas, e nada animadoras. A F está verdadeiramente a lutar pela vida numa unidade de cuidados intensivos, a ver se consegue debelar a infecção.

É sim. É um daqueles dias em que eu gostava de acreditar só para poder meter uma enorme cunha mesmo. E acho que vou meter mesmo assim.