March 31st, 2012

rosas

dead combo

Grande concerto dos Dead Combo, ontem à noite no TAGV. Os DC devem ser dos projectos nacionais que mais me entusiasmam. Por causa do som, é claro, mas também por causa do próprio projecto, da sua coerência, da sua força. Os DC são uma ideia, uma ideia muito forte, de música, naturalmente, mas mais do que isso, uma ideia estética, um determinado universo, que passa muito pelo cinema, por uma certa geografia (ou melhor dito, por uma ideia de geografia), por referências e evocações, por ambientes e culturas. E depois os discos são explorações dessa ideia, formas de a trabalhar para ver até onde é que ela pode ir, misturá-la com outras variantes, cruzá-la com outras ideias e outros caminhos. Não admira que, para além do próprio trabalho da banda, eles façam muitas colaborações: mais do que uma forma de levar a ideia deles até aos outros, suspeito bem que essas colaborações, para os dois elementos da banda, sejam maneiras de testar os limites do projecto e de ver o que conseguem absorver desses encontros.

E o concerto de ontem, como aliás os discos, em vez de um desfile de canções, podiam ser quase uma longa suite, muito fluída e dinâmica, com vários andamentos, vários temas, variações e fugas. O encadear dos temas pode ser visto como um festival de curtas-metragens, mas também como uma longa-metragem em episódios, em que os elementos de que a banda dispõe, as personagens, os enredos, vão saltando de episódio para episódio, criando novas histórias. Ou um daqueles filmes mosaico, em que várias sequências que parecem autónomas e diversas entre si, depois encaixam-se num todo harmonioso.

Não é fácil escapar às metáforas cinematográficas ao falar da música dos Dead Combo. Aquilo é tudo muito evocativo, muito forte do ponto de vista da sugestão. E depois eles são excelentes músicos, com uma criatividade quase sem limites e um apuro técnico rigoroso. Dá um prazer imenso ver os tipos a correrem riscos e depois aquilo sair tudo bem, sem nada se perder. Para além da música, o concerto é ainda muito bonito visualmente, com um desenho de palco também muito cinéfilo e elegante, sóbrio mas depois com notas muito fortes, a fazer jus à ideia de Lisboa Mulata, o título do seu CD do ano passado, e em cuja digressão o concerto de ontem se integrou.

Foi a segunda vez que vi os DC ao vivo. A anterior tinha sido também no TAGV, integrado no festival de blues de Coimbra, e em que eles tocaram com o guitarrista Gary Lucas. De resto, o Tó Trips recordou o facto de o concerto de ontem ser a primeira vez que os DC estavam a tocar sozinhos em Coimbra.

Um dos temas do disco Lisboa Mulata é um fado lindíssimo, intitulado Esse Olhar Que Era Só Teu, que, como é facilmente identificável, é um verso do poema de Alexandre O’Neill para o fado A Gaivota, criado por Amália Rodrigues. A música parece-me muito construída sobre a melodia de outro fado de Amália, Povo Que Lavas No Rio. Deixo aqui o clip, porque é de facto um tema belíssimo, em que as pausas e os silêncios são muito bem explorados para dar lirismo e intensidade à canção. E se ele é bonito assim, ao vivo então é uma experiência quase religiosa, uma coisa de uma intensidade verdadeiramente arrepiante.

rosas

smut



Li há umas semanas pela primeira vez um livro do Alan Bennett, e gostei tanto que já reincidi. Smut recolhe dois contos, que têm em comum, do ponto de vista narrativo, o facto de serem ambos histórias que têm no seu centro duas mulheres de meia-idade, de classe média, que têm de lidar com segredos e com aquelas coisas de que as pessoas bem educadas não falam em público.

O Alan Bennett tem uma escrita muito elegante e meticulosa, com frases simples mas muito bem construídas e um humor que parece muito contido mas é sempre muito destravado, sobretudo por aquilo que não é dito, que é apenas insinuado, ou que é referido muito breve e subtilmente.

Não faz grande sentido falar aqui dessas histórias, mas como suponho que ninguém que esteja a ler isto vai ler o livro (spoilers ahead, portanto!), em traços breves posso dizer que uma, a mais longa, é sobre uma mulher, recém enviuvada de um casamento desinteressante e sem chama (sim, nesse sector que estamos a pensar), que decide colaborar com o hospital-escola onde o seu marido foi tratado, encarnando personagens com problemas de saúde para aulas práticas do curso de medicina, e que, para compor o seu orçamento e contra a vontade da sua filha, arrenda um quarto a um casal de estudantes. As coisas vão-lhe correr bem, sobretudo quando os hóspedes propõem métodos alternativos de pagar as rendas em atraso, e a senhora vai descobrir emoções que o seu longo casamento nunca lhe proporcionou.

Na outra história uma outra mulher, também da classe média e de meia-idade, muito arrogante e com ambições de escalada social (só me fazia lembrar a Hyacinth Bucket - Bouquet! - da série Keep Up Appearences), tem uma relação de veneração com o seu filho. Este, que para além de muito bonito e atraente, é um homossexual armarizado, casa com uma mulher feia e rica. A nora e o marido da Hyacinth (chamemos-lhe assim para simplificar) tornam-se muito amigos, muito amigos mesmo, enquanto o jovem marido começa a ser vitima de chantagem por parte de um tipo que engatou na véspera do casamento, e que é um polícia que lá na esquadra dele é o responsável pelas acções em favor da não-descriminação dos polícias gays. Confused? Pois, parece um episódio da Soap, essa mítica série de finais dos anos 70.

O que é divertido é que, como comecei por dizer, esta loucura toda é servida por uma linguagem muito contida, parece tudo muito certinho e conforme, muito british e five o’clock tea. Para além de serem, em última análise, histórias sobre a solidão e a desconformidade, há muito análise social nesta prosa do Alan Bennett, muita radiografia a uma certa maneira muito inglesa de estar em sociedade, na qual tudo é possível desde que se mantenha um certo decoro, desde que não se perca a face perante a sociedade.

Pois, é, parece-me que não ficarei por aqui em matéria de Alan Bennett. Na livraria já tenho fisgado um outro livro dele, também em inglês (acho que A Leitora Real é a sua única obra traduzida e publicada cá), que quero ver se não me escapa.