March 30th, 2012

rosas

millôr

Frequentei a escola primária entre os seis e os dez anos de idade, ou seja, entre 1968 e 1972, mais coisa menos coisa. A minha mãe trabalhava no escritório de um advogado que ficava mesmo ao lado da escola, e por isso eu passava a maior parte do tempo que não estava nas aulas, que, tanto quanto me lembro, eram apenas no período da manhã, na periferia do prédio onde ela trabalhava. Que, por seu lado, ficava a curta distância da casa onde morávamos, talvez uns dois quarteirões a seguir. Passava-se isto em Nampula, Moçambique.

Se eu fizer um esforço de memória sou capaz de me lembrar de muitos lugares desse prédio, e das diversas actividades, lúdicas e não só, que neles tinham lugar. Havia uma barbearia onde eu cortava o cabelo (Peixoto?), uma casa de electrodomésticos que vendia discos (Electro-Invicta, lembro-me bem), uma loja de utilidades para o lar com brinquedos e muitos carrinhos da matchbox. Havia o mais famoso bar nocturno da cidade, de clientela maioritariamente masculina (e militar), onde eu, é claro, entrava à vontade durante o dia. Era o Bagdad. Havia um pátio, na parte de trás, que funcionava como estacionamento, que dava acesso rápido ao escritório, que era no primeiro andar. E, como era um prédio não muito alto, mas longo, que ocupava o quarteirão inteiro e ainda fazia gaveto, havia no prédio da esquina a casa de um colega meu de escola, para onde me costumava escapar para brincar. Acho que era o Márito, mas não tenho bem a certeza.

E havia o próprio escritório, onde eu, suponho que por ser uma criança tranquila e que me ‘portava bem’, passava muito tempo. Havia zonas interditas, é claro, não convinha que me aproximasse da parte nobre da casa, onde ficava a sala do advogado e a sala das administrativas, onde estava a minha mãe. Mas na parte de trás, voltada para o pátio, havia uma minúscula sala de espera que nunca era usada, e uma cozinha de apoio, e era aí que normalmente eu estava. À hora do lanche aparecia sempre, para comer as torradas e os cafés com leite que eram encomendados do bar nocturno do rés do chão. Além disso, passava ali muito tempo, a fazer os deveres, ou a ler, ou a entreter-me com qualquer coisa.

Na sala de espera havia sempre um molho de revistas, que eram renovadas já não me lembro por quem. As minhas preferidas, as únicas de que me lembro distintamente, eram as Cruzeiro, uma revista brasileira de grande porte, pelo menos tanto quanto me lembro, um magazine, digo eu hoje, inspirado no modelo da Life americana, com muitas fotos, reportagens, e notícias do cinema e de celebridades do meio artístico. Lembro-me das reportagens fotográficas das edições dedicadas ao carnaval, que me deixavam fascinado pelo luxo e pela exuberância dos fatos dos concursos. Era um carnaval exótico e grandioso, que não tinha nada a ver com os festejos e as fantasias que eu via nas festas de carnaval locais. Lembro-me também de um cartoon regular, o amigo da onça.

Foi nessas páginas da Cruzeiro que o nome de Millôr Fernandes se me tornou familiar. Confesso que a primeira coisa que me despertou o interesse foi o próprio nome, Millôr era um nome diferente, mesmo pelos padrões onomásticos de uma revista brasileira, um nome de homem mas que me parecia vagamente feminino. Era um nome curto, cativante, artístico. Apesar de o sentido de grande parte dos textos me ultrapassar, conseguia identificar o humor, sobretudo nas frase curtas, no epigramas deliciosos que o Millôr inventava a propósito de tudo que fosse o absurdo das nossas existências quotidianas.

Quando vim para Portugal, o nome do Millôr continuou sempre a aparecer. Numa época em que o tráfego entre Portugal e o Brasil se fazia sobretudo com escritores e outros agentes culturais, estou a falar de finais de 70 e dos anos 80, Millôr era uma presença frequente nos jornais portugueses. Tenho de confessar que nunca senti muito pelo Millôr aquela admiração respeitosa que sinto em relação a outros escritores e vultos da cultura em geral. Nunca o li com devoção, pelo contrário, sempre de uma maneira muito circunstancial, sem cerimónias. Mas isso era apenas porque para mim o Millôr era um amigo de infância, caramba, conhecia-o praticamente desde o tempo em que aprendi a ler.

E o que sempre gostei no Millôr, o que nele sempre me divertiu, foi aquilo que me prendia na infância: uma maneira aguda de olhar o absurdo do quotidiano, de distinguir o ridículo nos grandes gestos, que nos ajudava a levar as coisas sem as levar demasiado a sério. Uma alegria de viver, simultaneamente elegante e histriónica, ternurenta e sarcástica, mas sempre muito divertida, e que sempre associei a um modo carioca de estar na vida. É isso que, dias depois de Millôr morrer, me parece agora estar a faltar quando olho para o Brasil. Ou quando olho para o Brasil para, a partir dele, olhar para mim.