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dia internacional da mulher
rosas
innersmile
Ontem foi dia internacional da mulher. A sociedade de consumo e a redução ao mínimo denominador comum da cultura e da memória histórica, banalizaram estes dias comemorativos e retiraram-lhes significado. Para parte das pessoas (suponho que para a maioria, ou pelo menos para grande parte delas), o dia internacional da mulher vale tanto como o dia dos namorados, o dia das bruxas ou, ainda que ampliadamente, o natal: pretextos para gastar dinheiro e dizer ou fazer coisas bonitas ou engraçadas. Em suma, ocasiões para alimentar a nossa necessidade colectiva de promover a sensação de bem-estar.

Talvez isso explique porque é que há tanta gente a achar que não há razões para comemorar, que é uma forma de discriminação, ainda que pela positiva, ou que é um contra-senso. Ao contrário, eu acho que há todas as razões para assinalar este dia.

Primeiro, não nos podemos esquecer que o dia internacional da mulher tem origem nas correntes políticas ligadas ao socialismo e aos movimentos operários, tanto que se chamava inicialmente o dia internacional da mulher trabalhadora, e pretendia, por um lado, assinalar a chegada das mulheres ao mundo do trabalho assalariado, do trabalho como factor de produção, e, por outro, reivindicar para a mulher direitos iguais aos dos trabalhadores homens, nomeadamente no que respeitava aos salários.

Além disso, o dia internacional da mulher assinala ainda a luta pela igualdade de direitos cívicos e políticos. O lado mais notório desta luta tem a ver com o direito de voto, que foi, até há relativamente pouco tempo, negado às mulheres, e ainda o é em muitos sítios. Mas é pior do que isso. Não nos podemos esquecer de que em Portugal, há menos de 40 anos, as mulheres não podiam, por exemplo, viajar sem autorização dos maridos. O dia internacional das mulheres lembra-nos de que, em muitos países e em muitas comunidades, as mulheres ainda têm um estatuto social, político, económico e familiar, claramente inferior.

Além de que ainda hoje, no mundo do trabalho, há muita e profunda discriminação. Para além das mulheres ganharem menos em muitos sectores, nomeadamente da indústria, há desproporções muito acentuadas, por exemplo nas hierarquias. Mesmo em organizações em que as mulheres constituem a larga maioria da força de trabalho, à medida que se sobe na respectiva hierarquia, rareiam os lugares de direcção, chefia ou mera coordenação, que lhes são atribuídos.

Apesar de não ter andado a oferecer flores às senhoras nem a por posts no facebook sobre a matéria, por todas estas razões, e muitas outras certamente, eu acho que continua a fazer sentido assinalar o dia internacional da mulher. Como, a outros níveis, continua a fazer sentido comemorar o orgulho gay ou a data de nascimento de Martin Luther King (que é feriado nos EUA). Há aspectos essenciais ligados à dignidade humana, e àquela parte da dignidade que se consubstancia na igualdade da plenitude de direitos políticos ou cívicos, que, mesmo que sejam coisa do passado (e não o são), importa assinalar, mais não seja para lembrar que a comunidade humana tem um percurso longo atrás de si para chegar onde chegou. E outro, provavelmente tão longo, à sua frente para ser verdadeiramente alcançado um desígnio de dignidade plena para todos os seres humanos.
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