March 8th, 2012

rosas

sentido

Fui hoje com o meu pai ao psiquiatra. Não nos disse nada que nós, eu e a minha mãe, não soubéssemos já: que a vida psíquica do meu pai é frágil, que a sua ligação ao exterior é um fio ténue. ‘Acabou’, foi a expressão que o médico utilizou. Foi um momento intenso e emocional. Ligam-me ao médico do meu pai relações pessoais, e sei que ele atravessou e ainda atravessa uma situação como a nossa. Por um momento, aquele gabinete ficou cheio de pessoas que carregam as suas vidas e as suas histórias.

Mas uma coisa era nós sabermos que a situação do meu pai era cada vez mais complicada, que a sua condição psíquica se agravava quase de semana para semana, de dia para dia. Outra coisa, incomparavelmente mais grave e séria, é isso ter o peso de uma declaração técnica, de um ‘atestado médico’. O meu pai ainda não saiu de casa, da casa afectiva onde mora, onde nós moramos, mas hoje foi como se de facto tivéssemos começado a fazer a mala.

Os últimos tempos têm sido muito penosos. Sobretudo para a minha mãe, que convive continuamente com o meu pai, e uma grande parte do dia estão os dois sozinhos, e é ela que tem, usemos a expressão sem receio, de tomar conta dele. Para mais, ela tem sérias limitações físicas. Mas é penoso olhar para ele e perceber a ausência quase completa, a sua falta de ligação ao que o rodeia, mesmo em relação a nós dois, mesmo em relação à minha mãe, de quem ele tem uma dependência quase total. Ainda hoje na consulta o médico perguntou-lhe se ele tem passado bem e ele virou-se logo para a minha mãe a confirmar: ‘Tenho passado bem, não tenho?’ É penoso assistir aos seus rituais alheados, às suas rotinas completamente voltadas para dentro, à falta de exigência consigo próprio em coisas em que, um pouco paradoxalmente, a sua auto-estima ainda persiste.

Conforto e dignidade, foi o que o médico disse serem as únicas coisas que podemos dar ao meu pai. Não ver intencionalidade nas coisas que ele faz ou diz, aceitar com naturalidade as suas acções e as suas omissões. Tentamos descobrir um novo padrão de normalidade na relação com o meu pai, onde consigamos, apesar de tudo, encontrar algum conforto doméstico e familiar. Onde já não é fácil encontrar consolo, é na perplexidade com que olhamos o seu olhar, e em que tentamos descortinar algum sentido.