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o murmúrio do mundo
rosas
innersmile


O Murmúrio do Mundo é a crónica que fica dos apontamentos e das notas tiradas durante uma viagem à Índia organizada pelo Centro Nacional de Cultura, e da qual Almeida Faria teria a incumbência de relatar. É um livro breve, acompanhado por ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, que escapa um pouco às categorizações fáceis do que são habitualmente os livros de viagens. O próprio autor confessa que não quis escrever um guia sobre os lugares do que foi a Índia portuguesa, mas também não é propriamente um ‘journal’ íntimo e impressionista.

Talvez possamos dizer que o que Almeida Faria faz é um mapa, não do que foi a presença dos portugueses na Índia, mas das ruínas dessa presença, da sua arqueologia. No prefácio, Eduardo Lourenço fala de um requiem melancólico de um certo esplendor, e de facto não parece possível dizê-lo muito melhor.

Mas dito isto não se pense que se trata de um livro triste ou sombrio. Almeida Faria nunca se desloca para fora da sua comodidade de turista ocidental, porque sabe que os perigos maiores não são exactamente os que se escondem atrás de cada esquina. E, claro, não deixa passar em branco a Índia da multitude, das religiões, dos contrastes, das castas, das cores, dos cheiros e das texturas.

Mas a maior originalidade do livro reside no modo como o autor fez um levantamento, através de trechos e citações, das referências literárias à relação entre os portugueses (mais do que Portugal) e a Índia, quer do ponto de vista das fontes históricas quer da perspectiva da literatura, optando por incorporar esses trecho no seu próprio texto, raras vezes citando a origem da referência, na maior parte dos casos remetendo para a listagem anexa que identifica todos os autores citados. O resultado é uma interessante polifonia que destaca, ao invés de disfarçar, a própria voz autoral. De facto, nunca perdemos de vista que é o autor que estamos a ouvir, ou, dito de outra maneira, que é com o autor que estamos a dialogar.

Livro muito breve, como disse, muito fácil de ler, é todavia uma obra extraordinária, que nos traz incólume não apenas o sabor da lonjura, mas sobretudo o do impossível, daquilo que parece que já não existe, e que parece que apenas existiu no ar, em sonhos. De um projecto, mais do que de uma obra.