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shame 5*
rosas
innersmile
Há uma foto promocional do filme Shame, de Steve McQueen que mostra Brandon de pé num átrio de elevador. A posição do corpo e da cabeça de Michael Fassbender lembra-me a de um dos anjos do filme Wings of Desire, do Wim Wenders, creio que o Bruno Ganz, no alto de um arranha-céus naquela que é uma das mais icónicas imagens do filme, creio que até serviu para um dos cartazes.

O que é curioso porque desde a primeira sequência do filme, passada no metro, e em que Brandon tenta seduzir uma passageira com um anel de noivado, que pensei que Steve McQueen filme todas as personagens do filme como se fossem anjos caídos, personagens à beira de uma dissipação irremediável, resiliente e dolorosa.

O que mais me espantou neste filme foi o olhar da câmara de McQueen. Um olhar intenso, demorado, e muito cru, mas em que que crueza não se confunde com gelo. É fácil responsabilizar a proveniência do realizador das artes plásticas, por esse olhar saturado e intenso, em que a imagem, aquilo que vemos no ecrã, parece conter todas as pistas para decifrar a alma das personagens, em particular as de Brandon e de Sissy.

Com efeito, o filme diz-nos muito pouco acerca disso, a informação é escassa, a própria narrativa é pouco densificada. Então, todo o mistério é remetido para as imagens-elas-próprias, como se apenas elas pudessem conter inscrita qualquer verdade que dê sentido àquelas vidas.

Isso e o corpo do actor, uma máquina que parece aprisionar um destino, uma bala disparada, mais do que a arma que a disparou. Acho que não se consegue ser mais admirável do que Michael Fassbender é neste filme.

Shame é um filme absolutamente a não perder, e a ver com uma entrega e uma disponibilidade que iguale o desamparo de animais feridos dos seus personagens. Com sequências magistrais, como a do jogging nocturno de Brandon, em que percebemos de maneira aguda como este filme é visual a um nível que não é muito habitual. Ou a sequência de Sissy a cantar New York New York em que, ao contrário do que é costume, a canção não serve de pano de fundo ao que se está a passar, mas é ela própria que comanda a narrativa e o seu tempo. De resto, outro destaque do filme vai inevitavelmente para uma banda sonora lindíssima e que continuamente nos convoca de modo compulsivo para a tensão das imagens.
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alfaiate
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innersmile


«Por um obscuro salto mental, associei este anil ‘para endemoninhados’ à sonâmbula aparição do pintor flamengo. Como se a minha vocação para a solidão estimulasse os solitários, não foi ele o primeiro estranho a fazer-me confidências, só que desta vez a confissão vinha acompanhada de reflexões meio enigmáticas. A certa altura opinou que o ser humano é um ser sem razoável razão de ser. Terei ouvido bem? Com o seu ar de oráculo, seria esta frase mais uma amostra do gosto dele pelo mistério, mais uma pirueta verbal para me impressionar? Murmurou ainda algo acerca do tempo, falou em tempos de ruído e tempos de silêncio, interrogou-se sobre se alguém sabe o que é o tempo, sobre se o tempo passa por nós ou nós por ele. Comentou que tratamos o tempo como se fossemos o alfaiate dele, tiramos-lhe as medidas, vestimo-lo de acordo com o nosso gosto, as nossas conveniências, encurtamos aqui, alargamos ali, condenados a jamais conseguirmos definir de que matéria ele é feito. Enfrentamos aliás o sonho e o tempo da mesma maneira, sem discernirmos a fronteira entre o que no sonho é onírico e o que é retrato das nossas vidas, como se cada um dos nossos sonhos fosse sonhado por outras pessoas, todas diferentes umas das outras e diferentes entre si. No fundo, faltam-nos palavras para pensarmos o sonho, o tempo, o espaço, o essencial.»

- Almeida Faria, O MURMÚRIO DO MUNDO (Tinta da China)