February 28th, 2012

rosas

trabalhos e paixões de fernando assis pacheco



Mais do que uma biografia, Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, que de resto se assume como uma crónica biográfica, é uma evocação da vida, mas sobretudo do carácter, da convivialidade e da joie de vivre, do jornalista e escritor. Há uma simpatia explícita, e explicitada, por parte de Nuno Costa Santos em relação à figura de Assis Pacheco, que torna a leitura do livro num gesto agradável, mas que sabe a pouco para quem vinha por mais.

Mas admito que isso seja uma injustiça. Não sei se seria possível construir uma biografia da vida e obra de Assis Pacheco que fosse mais ambiciosa do que este retrato de Nuno Costa Santos. E suponho que aquilo de que precisávamos não era tanto de ler sobre o Assis Pacheco, mas de o ler a ele. Tanto quanto julgo saber, havia uma plano para seleccionar, reunir e editar muita da sua produção jornalística. Creio que foi a Asa que ainda publicou um volume de entrevistas, sensivelmente por altura em que saíram as Memórias de Um Craque e Respiração Assistida.

Se calhar é disso que temos saudades, de ler a prosa (e a poesia, claro) rica e espraiada de Assis Pacheco, de sempre aprender com ele, se mais não fosse, a ver de outra maneira, com um olho na ironia e outro na ternura. E por isso é injusto dizer que o livro de Costa Santos soube a pouco. Trouxe-nos de volta o convívio com Assis Pacheco, e isso é incomensuravelmente muito.
rosas

a glória



«Frederic viu a sua atenção ser atraída por um velho hussardo solitário que estava a pouca distância. Montava um imóvel cavalo pigarço e apoiava o cotovelo esquerdo no cepilho da sela, ligeiramente encurvado para a frente, pensativo, com o olhar perdido no infinito. Não era só o aspecto do hussardo (bigode, rabicho e tranças salpicadas de branco, uma cicatriz perpendicular na face, paralela ao francalete) que denunciava o veterano. Os arreios do seu cavalo eram velhos mas estavam cuidadosamente oleados, a pele de carneiro que cobria a sela estava gasta pelo uso sob as coxas do cavaleiro. O hussardo tinha uma mão sob o queixo, com o indicador passando, distraída e continuamente, pelas guias do frondoso bigode. A outra mão apoiava-se na culatra da espingarda que espreitava da bainha presa à sela; e no lado esquerdo, sobre a pasta e as perneiras cingidas das calças húngaras que lhe cobriam as botas até ao tornozelo, pendia um velho sabre curvo de cavalaria, o já quase desaparecido modelo de 1786. A viseira do capacete vermelho - a barretina de pele preta era privilégio exclusivo dos oficiais - descia sobre um nariz aquilino e forte, como o de um falcão. Tinha a pele do rosto bronzeada e uns olhos tranquilos em volta dos quais se amontoavam inúmeras rugas. Em cada orelha tinha um aro de ouro.

Frederic interrogou-se sobre a idade que teria o veterano. Talvez quarenta e cinco, cinquenta anos. Era evidente não ser esta a sua primeira batalha. Via-se nele aquela imobilidade serena, aquela economia de movimentos supérfluos, aquele isolamento abstraído do homem que sabia o que ia enfrentar. Não parecia um hussardo que esperasse, impaciente, conquistar outra parcela de glória; dava antes a impressão de ser um profissional que se concentrava antes de passar um mau bocado, com a calma de quem tinha escapado de muitas situações críticas semelhantes com a pele incólume e só esperava, imbuído de um fatalismo resignado de quem conhecia o inevitável, que o trabalho pelo qual lhe pagavam pudesse ser feito em pouco tempo, com rapidez e com a maior limpeza possível para voltar, no fim deste, a sentar-se na mesma sela e num estado de saúde semelhante ao que gozava naquele momento.

Frederic comparou a figura imóvel e silenciosa com os gestos meridionais e ar fanfarrão de Philippo, até com a confiança juvenil de Michel de Bourmont que, de repente, começava a parecer-lhe injustificada. E sentiu a suspeita incómoda de que, entre todos eles, talvez fosse o velho hussardo o único que tinha razão.»


- Arturo Pérez-Reverte, O HUSSARDO (Asa)