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COPENHAGEN STREET


para o Senhor Bruno Linhares



O mundo parece que começa e acaba em Copenhagen Street. A casa, vista de determinada perspectiva, tem o ar desolado das casas ao abandono. A janela, baixa, ampla e rasgada, abre da sala para o relvado da frente, no fim do qual há uma rua estreita e mal alcatroada onde é raro passarem automóveis. Apenas Jeremy, um miúdo qualquer da vizinhança, passa na bicicleta pela rua, duas vezes por dia, no caminho para a escola.

Passo muitas horas sentado em frente à janela. De dentro da casa ouvem-se as vozes das mulheres, mas a maior parte do tempo não se ouve nada. Quer dizer, ouve-se o zumbido do aparelho de ar condicionado que, nestes meses de Verão, está sempre ligado. Mas o barulho do ar condicionado é como o ruído dos automóveis ao passarem na auto-estrada ou do comboio nocturno, ao fim de pouco tempo deixamos de os ouvir.

Não estou a falar de Copenhagen Street, é claro. Aqui, nem sequer passa uma auto-estrada, e a estadual fica tão longe que não se ouve o barulho do tráfego. E o comboio ainda fica mais longe, quase ao pé do rio. Há dias em que me levanto de madrugada e vou na pick-up até quase junto ao rio apenas para ver passar o comboio das seis e quarenta. É um enorme comboio de mercadorias, com duas máquinas e mais de trinta vagões, que demora uns bons cinco minutos a passar. Não sei se demora tanto tempo, pois só me lembro de contar o tempo quase no fim, mas se não são cinco minutos, parece.

Não é que me tenha levantado cedo muitas vezes para ir ver passar o comboio das seis e quarenta. A maior parte dos dias acordo cedo, mas não saio de casa. Fico na sala, dou uma volta pelos arredores, vou até às lojas, e com isto se passa o dia. Tento reduzir ao mínimo as minhas conversas com as mulheres, e mesmo fora de casa só há duas ou três pessoas com quem falo com vontade. Mesmo com o Jeremy, que vive muito perto, quase nunca converso. Não é que eu tenha medo das pessoas, ou qualquer fobia do género, é mesmo porque a maior parte do tempo não tenho muita coisa a dizer aos outros. Vejo pela janela Copenhagen Street ao fundo do relvado, e a minha vida depende muito do que acontece na rua.

As mulheres passam muito tempo na parte do fundo da casa. Umas dentro, outras fora, no quintal que começa no alpendre junto à cozinha e só acaba ao fundo, junto à buganvília que tapa a parede dos anexos da casa dos vizinhos. As mulheres ficam à sombra, a conversarem ou a fazerem outras coisas, toda a tarde. A casa não tem piscina, mas a casa do fundo tem, e como sou amigo da dona, ela deixa-me ir lá, sentar-me no cimento, com os pés dentro da água. O pai da dona da casa trabalhava nas minas e morreu cedo, e a dona vive sozinha há muitos anos. Se não contarmos com o cão, é claro. Quando me sento á beira da piscina o cão vem sempre cheirar-me. Eu faço-lhe uma festa no cachaço, e ele vai-se deitar na sombra, a gozar a companhia.

Sei que muitas das vezes as mulheres estão a falar de mim. Não sabem bem o que é que me hão-de fazer. Para umas sou já um homem, mas para outras sou ainda um garoto. Umas, acham que eu devo ficar aqui na casa, a tomar conta das coisas e de mim. Outras, acham que eu ainda sou muito novo para ficar sozinho no mundo. Eu não sei muito bem o que é que hei-de pensar. Há alturas do dia em que me apetece realmente ficar sozinho, sentado à beira da piscina com os pés na água a fazer festas ao cão. Ou sentado na pick up a ver passar o comboio e a contar os vagões. Mas há outros momentos em que eu olho pela janela da sala e não vejo nada, a luz do sol é muito intensa no jardim, e nem sequer consigo ver Copenhagen Street, e o que se passa por lá.
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