February 17th, 2012

sparrow

secret historian 3/3



Secret Historian, The Life and Times of Samuel Steward, professor, tattoo artist and sexual renegade, é das melhores biografias que eu já li. Em grande parte o fascínio do livro deve-se, naturalmente, à vida extraordinária do biografado. Mas o trabalho do seu autor, Justin Spring, é também ele fora de vulgar. Dispondo de um acervo documental riquíssimo, Spring faz uma leitura e uma análise atenta e completíssima do que foi a vida de Steward, e da maneira como Steward a viveu. Ou seja, ficamos a conhecer não só os acontecimentos e os episódios que constituíram a sua vida, mas igualmente as suas reflexões, os seus desejos, o modo como racionalizava aquilo que lhe acontecia, as suas opiniões e as suas reacções quer em relação aos aspectos da sua vida pessoal quer em relação ao que acontecia à sua volta. A análise dos papeis de Steward foi complementada com a realização de inúmeras entrevistas, e com a análise de espólios de outros protagonistas da sua vida.

Samuel Steward viveu de maneira intensa, e mesmo selvagem, a sua sexualidade e a sua homossexualidade. Sobretudo numa época em que a repressão moral era fortíssima, e os homossexuais realizavam-se de forma clandestina e subterrânea. A partir dessas vivências, do seu registo e do seu contexto, Justin Spring escreve uma história da homossexualidade na América (e não só, já que acompanha as aventuras de Steward na Europa, nomeadamente em Paris e em Roma), particularmente relevante no que se refere aos anos pré-Stonewall, ou seja, antes do movimento de libertação gay que cresce a partir de 1969.

A qualidade da escrita é notável, e o texto nunca é pesado ou monótono. Pelo contrário, há um equilíbrio bem conseguido entre os trechos mais narrativos e outros mais reflexivos, entre o comentário e o testemunho, entre a análise de vocação mais histórica e os episódios mais picantes da vida do biografado. Mas o que marca definitivamente o texto é o modo como Spring constantemente se socorre da própria escrita de Steward, dando um tom quase auto-biográfico à obra. Como é tradição anglo-saxónica, o tomo completa-se com extensas notas a referenciar o texto, e com os indispensável índices onomástico e bio-bibliográfico.

O livro foi um dos finalistas do National Book Award, o que não apenas diz bem do seu interesse para além do restrito universo gay (ou seja é um livro não ‘guetizável’), como de certo modo faz justiça ao biografado, retirando a figura de Samuel Steward da clandestina e anónima obscuridade em que viveu a sua vida e com que a história se preparava para o esquecer.

O Justin Spring tem um site na internet que é em grande parte dedicado ao livro (link) e uma página no Facebook (link).