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secret historian 2/3
sparrow
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Durante toda a sua vida, que foi longa, já que morreu com 84 anos (o que não deixa de ser extraordinário numa pessoa que correu todos os riscos, expondo-se a situações quer de extrema violência quer de contágio de doenças sexualmente transmissíveis), Samuel Steward nunca perdeu a compulsão de coleccionar (tudo, nomeadamente material de natureza sexual), a de escrever (tudo, novamente: romances, memórias, poemas, histórias eróticas, cartas, diários), e a de registar (tudo, mais uma vez: manteve um ficheiro pormenorizado e codificado, de todas as pessoas com que manteve relações sexuais e de todos os contactos que teve com esses parceiros, escreveu inúmeros diários e jornais, uns mais íntimos outros que divulgou, onde reflectia sobre as suas diversas actividades). Parte desses papeis entregou-os a Alfred Kinsey, outra parte a uma universidade, mas a grande maioria ficou à guarda dos amigos que trataram dos seus assuntos após a sua morte, no último dia do ano de 1993.

Foi com base nessa extensa documentação que Justin Spring escreveu Secret Historian, The Life and Times of Samuel Steward, professor, tattoo artist and sexual renegade. O meu amigo João Máximo traduziu o prefácio do livro, da autoria de Justin Spring, e com a sua autorização reproduzo aqui esse texto:

«Samuel M. Steward, poeta, romancista e professor universitário que abandonou o mundo académico para se tornar investigador sobre sexo, tatuador vagabundo e pornógrafo, pode parecer, à primeira vista, um candidato improvável para uma biografia, porque é praticamente desconhecido e porque todos os seus livros estão esgotados.

A primeira vez que me surgiu o nome de Steward foi num srquivo de literatura gay de cordel da Biblioteca John Hay Special Collections da Universidade de Brown, onde tinha ido para investigar as barreiras sociais e literárias que um grupo específico de artistas e escritores tinham enfrentado durante o período, ainda pouco documentado, que precedeu a libertação gay. Como biógrafo e historiador de arte, desconhecia quase completamente a literatura gay de cordel antes de visitar Brown e ignorava que muitos desses livritos baratos das décadas de 1950 e 60 tinham conseguido descrever o mundo "secreto" dos homossexuais americanos.

Mas os autores de ficção de cordel estiveram entre os primeiros a descrever a subcultura homossexual para a generalidade dos leitores, pois conseguiram contornar as restritivas leis anti-obscenidade da época descrevendo a "doença" homossexual como melodramática e grotesca. Se comecei por me sentir deleitado com as ilustrações de capa expressivas e os títulos chocantes ("Flight into Sodomy" ("Voo para a Sodomia"), "Kept Boy" ("Rapaz por Conta") e "Naked to the Night" ("Nu para a Noite") pareciam ser bem divertidos), rapidamente descobri que o conteúdo era exactamente o seu oposto: eram, na sua maior parte, histórias mal escritas sobre a solidão, o álcool e a derrota psicológica, frequentemente terminando em suicídio ou assassínio (ou ambos).

Enquanto folheava estes livros deprimentes, lembrei-me de uma série de romances e contos muito distintos destes, que encontrara na livraria A Different Light já há uma dezena de anos. Eram comédias eróticas que narravam as aventuras do prostituto Phil Andros, um inesperado intelectual, licenciado pela Universidade Estadual do Ohio. Phil vivia uma vida feliz e descontraída porque a sua curiosidade pela natureza humana transformava cada um dos seus engates pagos numa experiência enriquecedora. O tom dos livros de Phil Andros era resolutamente sexual, afirmativo, apesar da atmosfera pesada e anti-homossexual da época; Phil adorava sexo (e era mestre no assunto) e, aparentemente, tinha optado pela prostituição para o desfrutar ao máximo.

Os livros de Phil Andros que eu havia comprado (sete títulos ao todo) eram reedições de publicações anteriores. Tinham sido publicados no início dos anos 1980 por uma editora chamada Perineum Press e as suas capas eram ilustradas por desenhos, presumivelmente representando Phil Andros, de Touko Laaksonen/Tom of Finland, um ilustrador erótico que tinha iniciado a sua carreira em meados dos anos 1950, mas que apenas tinha atingido o auge de popularidade 20 anos depois. A edição da Perineum, apesar de já ter sido publicada nos anos 1980, não incluía nenhuma informação sobre a primeira edição dos livros nem explicava se havia alguma ligação entre Phil Andros e Tom of Finland; e também não revelava o verdadeiro nome do autor, apenas o seu pseudónimo, Phil Andros. Fiquei curioso sobre estas comédias sociais, bem escritas, intelectuais, que ao longo de quase uma década se ocuparam com descrições detalhadas de homens em cenas de sexo com outros homens. Estes romances persistiram na minha estante e, ocasionalmente, foram sendo emprestados a outros escritores que, como eu, se interessavam por eles. Quando uma dramaturga, vencedora de um Pultitzer, me devolveu um deles, comentou que tinha sido a pornografia mais feliz e livre de preconceito que ela já tinha lido.

Apesar de que a maior parte dos romances e contos de Phil Andros se passarem em finais da década de 1950, início da de 1960, rapidamente descobri na base de dados de literatura de cordel da Universidade de Brown que haviam sido publicadas originalmente em capa mole a partir de 1970. (Apenas a colectânea de contos $TUD foi publicada em capa dura, por uma editora denominada Guild Press, em 1966.) Já no que respeita ao autor que se escondia por detrás do pseudónimo Phil Andros: soube que tinha também publicado com muitos outros nomes, como Donald Bishop, Thomas Cave, John McAndrews, Phil Sparrow, Ward Stames, D.O.C., Ted Kramer e Biff Thomas, entre outros, mas que o seu nome verdadeiro era Samuel M. Steward. Subsequentemente descobri que Steward tinha iniciado a sua carreira pela literatura, como poeta, romancista e contista. Nos seus últimos anos de vida, publicou também 3 obras relevantes: "Bad Boys and Tough Tattoos", uma história social da tatuagem nos Estados Unidos, "Dear Sammy: Letters from Gertrude Stein and Alice B. Toklas", as memórias da sua amizade com estas duas grandes mulheres da literatura e, finalmente, "Chapters from an Autobiography", uma modesta compilação de memórias da sua vida.»