February 15th, 2012

sparrow

secret historian 1/3

A primeira vez que entrei numa sex shop gay foi em Londres, na Zipperstore, que ficava ao cimo de Camden High Street, quase ao pé do Camden Lock Market. Foi nos anos oitenta, na segunda metade da década, e as sex shops londrinas vendiam sobretudo poppers, acessórios sexuais (como dildos e aros penianos), revistas, cassetes de VHS e livros. A loja era muito pequena, e uma das paredes era completamente ocupada por livros. Foi nessa loja que vi à venda os primeiros livros de Phil Andros que comprei. Na altura eu não tinha quaisquer referências ou informações sobre fosse o que fosse relacionado com a homossexualidade, e a cultura e os estilos de vida a ela associados. Em termos mediáticos, pelo menos em Portugal, os tempos eram ainda os da idade das trevas no que à homossexualidade dizia respeito.

Foi na Zipperstore e na livraria Gay´s The Word que comprei a maior parte dos livros do Phil Andros. Como disse não tinha referências nenhumas e comprei o meu primeiro livro do Phil Andros, porque tinha na capa uns desenhos irresistíveis de outro nome que eu na altura desconhecia por completo, o do Tom of Finland, que é o autor de um dos universos visuais mais poderosos e consistentes daquilo que se poderá designar por uma arte erótica homossexual. Li um livro do Phil Andros, já não me recordo de qual, e gostei imenso, de modo que aos poucos, em sucessivas idas a Londres, comprei todos os que encontrei. Acho que foram seis ou sete, ao todo.

Já nos anos 90, ali pelo meio da década, tive os primeiros contactos com a internet. Um dos primeiros sites que conheci foi a livraria Amazon, a loja original americana, a única que havia na altura, e onde me deliciei a fazer pesquisas dos livros e dos meus autores favoritos. Acredito que tenha sido nessas primeiras incursões pela www que descobri que afinal Phil Andros era o pseudónimo, um dos inúmeros, de Samuel M. Steward. Em seguintes idas a Londres consegui comprar, na estante de livros em segunda mão da Gay’s The Word, alguns livros cuja autoria é assumida com o nome do próprio autor: Dear Sammy, uma memória da relação de Steward com Gertrud Stein e Alice B. Toklas, acompanhada de um conjunto de cartas, comentadas, que o autor recebeu de Stein e de Toklas; dois policiais, The Caravagio Shawl e Murder is Murder is Murder, que têm Stein como protagonista; e Parisian Lives, uma ficção baseada nas vivências do autor no meio literário, e sexual, da Paris dos anos trinta.

Aos poucos também, e sempre através da net, fui descobrindo pormenores biográficos acerca de Steward. Que tinha sido académico, carreira que trocou pela de tatuador, com o nome de Phil Sparrow, numa altura, os anos 50, em que apenas os marinheiros e os criminosos faziam tatuagens, e, a partir dos anos 60, a de escritor de livros eróticos. Soube também que tinha sido um profícuo colaborador de Alfred Kinsey, o homem que, nos anos 40 e 50, revolucionou a maneira como a sociedade olhava para a sexualidade, nomeadamente para a homossexualidade, ao divulgar que a percentagem de americanos que tinham tido práticas sexuais com outras pessoas do mesmo sexo era muito superior àquilo que se julgava. O interesse de Kinsey por Steward, e que esteve na origem de uma relação de amizade que durou até à morte do sexólogo, devia-se sobretudo a duas razões: por um lado Steward tinha uma vida sexual muito intensa e, como se diz hoje, promiscua, entregando-se a práticas sexuais menos convencionais. Por outro lado, interessava a Kinsey o facto de Steward manter registo, através de ficheiros e de diários, de todos os seus contactos sexuais.