February 4th, 2012

rosas

assis

Por estes dias tem-se voltado a falar de Fernando Assis Pacheco: esta semana passaram 75 anos sobre a data do seu nascimento, um destes dias é lançada uma biografia, a revista Ler deste mês, que ainda não li, dedica-lhe muitas páginas de atenção.

Conheci o Assis Pacheco, como creio que a grande maioria dos portugueses do meu tempo, através de um concurso da TV, em finais dos anos 70 (1977 é o meu palpite, acho que estava na Amadora quando o concurso passou). Li-lhe Walt (um livro de que já tive dois exemplares e não sei de nenhum), uma novela centrada na guerra do Vietname com os olhos postos em África, e lia religiosamente a Bookcionário, uma coluna que escrevia n’O Jornal, sobre livros, evidentemente.

Tenho a primeira edição d’A Musa Irregular (Hiena MCMXCI), dos Trabalhos e Paixões de Benito Prada (Asa, se não me engano), e dos livros póstumos: Retratos Falados, Memórias de Um Craque (o que de melhor se escreveu sobre futebol, em língua portuguesa) e o volume de poemas Respiração Assistida, um livro assombroso, marcado por uma morte que não demoraria a chegar.

Esta noite passou na RTP2 ‘Saudade Burra de Fernando Assis Pacheco’ (do primeiro livro do autor: “Saber / um dia com uma saudade burra / dizer adeus a tudo isto”), excelente documentário que nos devolve a figura, a personalidade, e o espanto de Assis Pacheco, sobretudo de uma certa sabedoria de viver cujo segredo consistia em ter prazer, em gozar e usufruir os outros e as coisas de todos os dias.

Mas o que me traz aqui ao texto é uma breve passagem do filme, um depoimento da mulher com quem casou, em 1963, e viveu até ao dia de Novembro de 1995 em que faleceu quando saía de uma livraria em Lisboa. Rosário Ruella Ramos recorda as circunstâncias do namoro, na Torreira e em Pardilhó, e do casamento, contrariado pela sua família. Recorda depois a ida de Fernando Assis Pacheco para Angola, para onde foi como expedicionário logo no início da guerra colonial. E é absolutamente espantoso como tantos anos depois (cinquenta? quase isso), a voz de Rosário se embarga de comoção ao lembrar o sofrimento, dela mas sobretudo do seu jovem marido, no horror da guerra.