January 23rd, 2012

rosas

bacantes

Fui ontem ao teatro São Luiz (onde já não ia há muitos anos) ver a peça Bacantes, baseada no clássico de Eurípedes, pelo Teatro Oficina Uzina Uzona, uma criação do encenador Zé Celso Martinez Correa. Claro, isto dito assim parece uma coisa banal, mas foi das experiências mais invulgares, mais extraordinárias, que eu vivi, ao mesmo tempo tão divertida e perturbadora, tão transgressora e estimulante. Confesso que pelo pouco que tinha lido estava com receio de que o espectáculo fosse um pouco datado, muito marcado por uma certa noção de teatro, livre e subversivo, que esteve em voga nos anos 60 e 70. Nada mais errado. Livre e subversivo, sim, mas a fazer pleno sentido no mundo de hoje, em que a dominação do dinheiro e o constrangimento moral concorrem para matar a realização pessoal de cada indivíduo mas também a dádiva que é podermo-nos entregar aos outros.

Porque, para mim, foi sobretudo esse o apelo da peça: a recusa da moralidade justa que nos tolhe os movimentos, a possibilidade de transgredirmos quase em cada gesto quotidiano, a possibilidade de nos esticarmos para fora e tocarmos o outro, e saboreá-lo (sim, porque o espectáculo também é sobre antropofagia), a ele e ao gozo desse contacto. A entrega a um hedonismo extremo como forma de experimentar o pleno. Mas atenção, que a peça não é programática, não pretende vender uma ideologia mais ou menos zen. O que pretende é perturbar, questionar, pôr em causa, tirar-nos da zona de conforto da plateia das nossas vidas, e desafiar-nos a ousar.

É impossível traduzir em texto tudo o que se passou no teatro. Entrámos na sala passava pouco das quatro da tarde, saímos faltava muito pouco para as onze da noite. Mesmo eu, que sou reservado e muito contido, houve momentos em me senti a viver uma espécie de transe colectivo. Calculo o que não deve ter sido para aqueles elementos do público que não hesitaram em literalmente despirem as suas roupas e mergulharem no êxtase da orgia.

Num São Luiz completamente transformado, com uma rua que percorre todo o teatro desde o fundo do palco até à porta da sala, rodeada por bancadas, o espectáculo apresenta-se como uma tragicomediorgia, como uma ópera electronicocandomblaika de carnaval. E acho que realmente a ópera será a noção de espectáculo que mais se aproximará destas Bacantes. Com mais de cinquenta pessoas em cena, desde actores, cantores, dançarinos, músicos, assistentes de cena, sempre com muito ritmo, intercalando momentos de grande intensidade teatral com outros de festa colectiva, e pontuada por alguns momentos electrizantes de interacção com o público, que foram aqueles mais perturbadores, em que o teatro se assume como magia e como perigo, como alguma coisa que de facto toca as pessoas, transforma-as, muda-lhes a vida, ou, ao menos, lhes provoca uma indisfarçável erecção!

O João, a quem agradeço a ideia e o convite para esta experiência inesquecível, pôs no seu blog um post muito informativo acerca da peça e da companhia, reproduzindo o texto da folha de sala (link). O Francisco, no seu blog, pôs uma fotografia muito esclarecedora do que aconteceu ontem, no São Luiz (link).