January 12th, 2012

rosas

o filho do desconhecido



Li o primeiro livro do Alan Hollinghurst, The Swimming-Pool Library, talvez ainda nos anos oitenta, ou princípios do noventa, que comprei numa das minhas idas a Londres. Foi um livro que me marcou imenso, dos primeiros que li que construíam todo o universo narrativo a partir de uma perspectiva homossexual. Nesse sentido, este livro, como a generalidade das obras do David Leavitt ou do Edmund White, corporizam aquilo que considero ser a literatura gay: uma visão do mundo que tenha a ver com uma identidade homossexual, com tudo o que isso necessariamente acarrete ou implique.

Tenho em casa mais um livro de Hollinghurst que nunca li, e gostei imenso do seu livro anterior, The Line of Beauty. Estava, por isso, muito curioso em ler O Filho do Desconhecido, o mais recente a ser publicado e que foi, se não estou em erro, candidato ao Booker Prize. De resto, o autor é actualmente considerado um dos grandes escritores ingleses.

O Filho do Desconhecido é uma história que atravessa um século. Vagamente inspirado em personagens reais, conta-nos, em cinco partes passadas em momentos temporais muito diversos e com protagonistas que vão igualmente variando de época para época, a história de uma mulher e a de um homem que lhe dedicou um poema. Hollinghurst, como todos os grandes escritores, consegue dar ao romance diversos planos de interesse. Por um lado, é uma história íntima, uma história de desejos que ultrapassam sempre a capacidade daqueles que os sentem em os concretizar. É, por outro lado, uma história literária, acerca do modo como podemos viver as nossas vidas sob o signo da literatura, seja do amor por ela, seja, mais prosaicamente, das vidas que se podem organizar ao seu redor. É ainda uma crónica de costumes, por vezes quase uma farsa, sobre uma certa aristocracia britânica, a dos baronetes, ou seja, aquela aristocracia mais recente e que normalmente é outorgada em função do dinheiro e dos negócios, e dos intelectuais com alguma vontade de ascensão social.

Confesso que li o livro mais com interesse do que com encanto. Talvez por ter lido em edição portuguesa, que me pareceu muito agarrada à tradução literal, o que provoca atritos na leitura. Há expressões de oralidade em inglês, como ‘oh dear’ ou ‘right’ ou ‘there’, que não fazem sentido traduzidas por ‘ó querida’, ‘certo’ ou ‘pronto’ a torto e a direito. Houve alturas em que me custou progredir no texto, porque um livro prende-nos sempre, antes da história ou das personagens, pela linguagem.