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Ontem, depois de muitos meses de alguma tranquilidade, tive de voltar com a minha mãe às urgências do hospital, com nova infecção respiratória. Felizmente voltou para casa, pelo menos por enquanto, pois a situação está longe de estar resolvida e ainda está tudo muito complicado e com o risco de complicar mais, como aconteceu em episódios anteriores.

Quando vim, a meio da tarde, buscar a minha mãe para a levar ao hospital, tive de levar o meu pai comigo, pois não está em condições de ficar sozinho em casa. Durante as perto de quatro horas que tivemos de esperar na sala de espera do serviço de urgências, ele esteve completamente desorientado, muito impaciente e perturbado, mas uma impaciência apesar de tudo tranquila, pelo menos sem agitação física.

Sempre sentado ao meu lado, muito quieto, não parou de perguntar, às vezes de seguida, as perguntas repetindo-se quase sucessivamente, que lugar era aquele onde estávamos ou o que é que estávamos ali a fazer. Quando eu lhe respondia que estávamos à espera da minha mãe, ele perguntava porquê, se a minha mãe estava doente, que ele não sabia de nada. Apontando para a porta do banco de urgência, perguntava se a minha mãe estava ali dentro, se estava sozinha, e pedia-me para ir lá perguntar pela minha mãe. Acho que o que ele de facto queria era ir-se embora, mas não conseguia articular essa ideia.

Claro que o melhor teria sido tirá-lo daquele lugar, mas nem eu me podia ausentar pois estava sempre na expectativa de me virem dar conta do que se estava a passar com a minha mãe, nem tinha ninguém a quem pudesse telefonar a pedir para o irem buscar. Foi angustiante, quase tanto como não saber como estava a minha mãe, vê-lo naquele estado, completamente ausente, com uma incapacidade quase total de perceber e lidar com os acontecimentos ao redor dele.

Claro que este processo se tem estado a agravar aos poucos ao longo de muito tempo, mas parece que ultimamente as coisas se aceleraram, ou então está a chegar a um ponto em que a demência, porque não sei que outra coisa lhe hei-de chamar, começa a ocupar quase todo o seu cérebro. Claro que a minha mãe, que passa com ele o tempo todo, me está sempre a chamar a atenção para o que se está a passar, mas nunca como ontem me tinha apercebido de como o meu pai já está tão ausente.

O meu pai sempre foi muito caprichoso e até um pouco castigador, sobretudo com a minha mãe e comigo. Mas agora, felizmente, está muito mansinho, muito parado. Fisicamente continua forte, mas do ponto de vista do raciocínio e da vontade está a perder quase completamente a autonomia. A maior parte do tempo em que estamos juntos, nomeadamente ao serão, está parado. Quando eu e a minha mãe estamos a conversar, ele segue a conversa com um olhar fixo, mas baço, passivo, opaco, nada perscrutador ou inquisitivo. Como se olhasse, mas não visse.

Hoje saiu mais uma edição da revista ler, na qual Carlos Vaz Marques entrevista o Manuel António Pina. Agora depois do almoço, estava no café a ler a entrevista, e li este trecho:

“As palavras separam-nos do mundo. Isso acontece com o mundo e acontece connosco mesmos. Contactamos com o mundo em termos linguísticos. Não temos outro remédio, só temos palavras, não temos mais nada, o que é que podemos fazer? É uma coisa que sempre me incomodou muito. Gostava de estar mais próximo das coisas. Nos animais vejo isso, essa inocência. Só vi uma inocência dessas no olhar da minha mãe, pouco antes dela morrer. Já não me reconheceu e olhou-me com um olhar estranho. Tenho até um poema antigo que diz assim: «O gato olha-me ou olha o meu olhar olhando-o?»”