December 25th, 2011

rosas

som


















Parque Eólico da Lousã, véspera de natal.
As fotografia não conseguem captar o som das pás a rasgarem o ar. É a parte em que entra a imaginação de quem as olha.
rosas

mais wilder. autobiografia de NC

Mais três filmes de mestre Billy Wilder que as renas me puseram no sapatinho. The Private Life of Sherlock Holmes, de 1970, é dos mais fraquinhos do realizador. Uma tentativa, acho que falhada, de apimentar a vida do famoso detective criado por Conan Doyle, mas que morre um bocado entre um retrato de Holmes sempre a deslizar para a caricatura, e um argumento feito de vários pedaços e não de uma boa ideia. Salvam-se algumas piadas e a utilização que Wilder faz da ambiguidade sexual da relação entre Holmes e Watson.

Avanti! (1972) é uma deliciosa comédia à italiana, de novo com Jack Lemmon no protagonista. O tom do filme vai variando entre a comédia romântica (mas tratando-se de Wilder, a componente romântica é sempre a descair para o desbragado) e a comédia negra, com defuntos roubados e importação de caixões. O momento queer aparece logo no princípio, quando Lemmon se mete na casa de banho de um avião juntamente com um companheiro de viagem que acaba de conhecer e a quem faz uma proposta ao ouvido. Se acabam por se juntar ao Mile High Club ou não, só mesmo vendo o filme. Avanti! é um bom exemplo de como Wilder aproveitava cada filme para alargar um bocadinho as fronteiras daquilo que se podia dizer e mostrar no cinema.

One, Two, Three é uma comédia de 1961, filmada em Berlim enquanto os alemães de leste construíam o muro, e que caricatura a guerra fria, tanto do lado dos americanos como dos comunistas. É uma pequena obra-prima de humor, e da escrita de comédia de Wilder e do seu co-argumentista de sempre, I.A.L. Diamond. O filme é verdadeiramente endiabrado, as piadas sucedem-se a um ritmo louco, o caminho é do caos completo, e James Cagney tem um dos mais brilhantes desempenhos que eu já vi, um verdadeiro maquinista louco e inspirado, genial e hiper-cinético, ao comando de uma locomotiva que parece que só vai parar quando explodir (de riso, é claro). Tenho de arranjar o argumento deste filme, e se o conseguir não sei se resistirei à tentação de o transcrever TODO para aqui.



Entretanto passaram hoje, precisamente no dia de Natal, 22 anos desde que Nicolae Ceasescu e a sua mulher Elena foram executados num dos casos mais dramáticos do desabar dos regimes totalitários da cortina de ferro. A melhor ocasião, portanto, para ver (ou para acabar de ver, pois já tinha começado a ver há dias) A Autobiografia de Nicolae Ceausescu, o filme que Andrei Ujica, uma montagem monumental que o realizador fez de milhares e milhares de metros de filmagens de propaganda que Ceausescu mandava fazer para edificação da revolução e, é claro, glória própria.

Sem voz off, sem legendas a enquadrar, sem outras referências que não as que resultem das próprias imagens, o filme consegue o prodígio de ser ao mesmo tempo um documentário factual e cronológico dos anos do ditador, e um subtilíssimo comentário, não apenas político, mas sobretudo humano, por nos fazer interrogar sobre as enormes contradições sociais, individuais ou psicológicas, que permitem vidas assim, a do próprio mas sobretudo as das milhares de pessoas que vivem sob o seu jugo.

A única dúvida que o filme me suscita é a de saber se a sua eficácia depende em absoluto de cada espectador o ver com a informação que ele próprio carreia para o visionamento, ou se o filme se mantém poderoso mesmo para um espectador que lhe chegue sem qualquer informação prévia sobre Ceausescu, em particular, mas também sobre o que foram os regimes comunistas que marcaram a história do mundo, mas sobretudo da Europa, nas décadas entre o final da II Grande Guerra e os anos 80/90 do século XX.


Claro que aparentemente o filme de Ujica está o mais afastado possível da demência de Billy Wilder. Mas há um fotograma do filme que merecia aparecer em qualquer das comédias sexuais de Wilder. Só para enquadrar, a sequência de que a imagem faz parte, cobre a visita de Ceausescu a Inglaterra, onde foi recebido com 'full regalia', incluindo um passeio pelas ruas de Londres no coche real na companhia da Rainha de Inglaterra.