December 21st, 2011

rosas

remains of the day

Ter-me lembrado, um dia destes, do disco do Padre Fanhais que deve estar guardado na casa dos meus pais, levou-me para uma das minhas angústias recorrentes, daquelas que, quando me lembro delas à noite, significam uma noite de insónia e de calores.

Angustia-me muito pensar no que é que eu hei-de ter de fazer às coisas dos meus pais, ao recheio da casa deles. Ainda por cima a casa deles é alugada, o que significa que quando o problema se puser, eu vou ter relativamente pouco tempo para o resolver.

Relativamente às coisas mais recentes, aos móveis, a esse tipo de coisas, não me preocupo muito. Provavelmente vou ter de chamar alguém que pegue naquilo tudo e leve. Mas causa-me muita angústia o destinos das coisas pessoais deles, sobretudo daquelas coisas que eles têm há muitos anos. Nós trouxemos relativamente poucas coisas de Moçambique, mas essas, as que nos acompanham há muitos anos, as poucas que vêm da minha infância, são as que mais me angustiam.

Claro que posso sempre ficar com elas, mas são coisas demais para caberem em duas ou três caixas de cartão e poder trazê-las para minha casa. Mas há muitas coisas, sem qualquer valor monetário (não há disso em casa de quem teve de começar uma vida aos cinquenta anos, arrancando verdadeiramente do zero), mas que são objectos que fazem parte da vida deles, da nossa vida. Há coisas na casa dos meus pais (estou-me a lembrar dos discos, da aparelhagem, da máquina de filmar e da máquina de projectar, de alguns bibelots que estão na cristaleira da sala) que conheço desde sempre, desde que era muito criança.

Não me causa angústia o destino das minhas coisas quando um dia eu morrer. Os meus sobrinhos não me ligam nenhuma, não vou ter ninguém que verdadeiramente se interesse pelas coisas que tenho, e por isso suponho que alguém vai ter a trabalheira de mandar tudo para o lixo. Ou, se quando eu morrer ainda tiver a minha casa, fechar a porta e deixar as coisas apodrecerem lá dentro até haver um cataclismo nuclear ou a vida na terra acabar de qualquer maneira. Mas isso não me preocupa minimamente. Não tenho planos nenhuns para depois da minha morte.

Mas considero intolerável a ideia de ter eu próprio de deitar fora a vida de outras pessoas, ou mesmo a minha própria. Há na casa do meus pais caixas com fotografias desde a infância deles, e da minha e do meu irmão claro. Caraças, acho que não ser capaz de deitar aquilo fora, ou dar a alguém para levar para lhe fazer não sei o quê. Se aquilo tudo implodisse, a casa e tudo o que está lá dentro, no dia em que ficasse vazia, era como o outro. Agora ser eu a ter de tomar decisões que impliquem deitar fora as vidas dos meus pais, a minha própria vida, acho que não vou ser capaz.

Num filme que vi noutro dia, há um fotograma a preto branco de um miúdo sozinho a seguir atrás de uma carreta funerária, por uma rua molhada. Foi uma imagem que me bateu com muita força. Suponho que um dia me vou sentir como aquele miúdo.