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areia da praia
rosas
innersmile
No Sábado à tarde fui à praia. Estou a ficar um bocadinho viciado nestas surtidas até à beira-mar. Fui com o meu amigo Zé, e andámos a passear pelo areal, onde a maré tinha chegado poucas horas antes. Como somos ambos 'un po strani', em vez de nos extasiarmos com a espuma das ondas a quebrar na areia (sim, precisamente), pusemo-nos antes a observar o lixo que o mar tinha depositado na praia. Muitos restos de material de pesca, e uma quantidade imensa de de garrafas vazias e rolhadas, sem rótulos mas quase todas de álcool. Claro que verificámos todas elas a conferir se alguma teria a message in a bottle, mas nada. Mas na hipótese pouco provável de serem restos de alguma beach rave, fiquei intrigado sobre o significado de tantas garrafas.

Quando já vínhamos a sair o Zé lembrou-se de uma canção muito antiga do Padre Fanhais, Areia da Praia. Infelizmente não encontrei no Youtube um clip com a canção, mas consegui encontrá-la num site que tem várias canções do autor (link. O Francisco Fanhais foi uma das figuras do progressismo católico que mais se destacaram na luta contra a ditadura fascista, antes do 25 de Abril, e que teve uma carreira, breve mas intensa, de baladeiro revolucionário, tendo musicado, entre outros, poemas de Sophia de Mello Breyner, nomeadamente a Cantata da Paz, de que resultou um dos hinos mais populares da democracia pós-revolucionária. A letra de Areia da Praia, creio que da autoria de Manuela de Pina, e de que eu e o Zé bem nos tentámos lembrar, é assim (não garanto a absoluta fidelidade da transcrição da letra, tirei-a de ouvido, como fazia antigamente, antes de haver sites de lyrics) :

"Areia da praia que te estendes feliz, cada hora que passa e fitas o céu
Cinzento e molhado, depois de chover

Com o sol que te beija, o mar que te entrega, a noite que te esconde, o vento que te leva e torna a trazer

E os pobres mortais sabendo-te assim feliz como és
Passeiam-te e gostam, saber-te rendida debaixo dos pés."


Esta canção do Padre Fanhais, juntamente com outras quatro, entre elas a Cantilena, fazia parte de um single (um EP, como se chamavam os discos de 45 rpm que tinham quatro temas) que faz parte dos discos que trago desde a infância, e que suponho ainda existam, arrumados em álbuns de plástico, no armário do corredor em casa dos meus pais.


Regressando ao Sábado passado. Como a areia da praia estava muito molhada, trouxe quilos dela agarrados às sapatilhas. Parte significativa ficou nos tapetes do carro, mas uma boa parte ainda veio agarrada às solas para dentro de casa. Junto à cadeira onde me sentei para as descalçar o soalho está cheio de areia da praia, que não vejo mas sinto raspar quando a piso. Eu sei que devia ficar contrariado por ter a casa suja, mas ao contrário, acho divertida a ideia de, em pleno inverno (ok, ainda não é bem pleno, só começa amanhã), ter areia da praia estendida, suponho que feliz, pelo chão da casa. Faz-me lembrar aquele slogan do Maio de 68: "sous le pavé, la plage!"