December 19th, 2011

rosas

orphée

Fui ontem ver à Culturgest o espectáculo de dança Orfeu, pela companhia de José Montalvo e Dominique Hervieu. Esta revisitação ao mito é feita com base noutras versões de Orfeu, nomeadamente a nível musical, com trechos de Monteverdi, Gluck, Philip Glass, e até um cheirinho do Orfeu Negro.

Trata-se de um espectáculo exuberante, com muito boa onda, em que a dança resulta de um cruzamento entre estilos muito diversos, e onde a dança contemporânea é assim uma espécie de porto onde chegam outras disciplinas, da dança clássica ao hip-hop, passando pelas danças africanas ou pela acrobacia.

De resto todo o conceito desta produção reside na noção de mestiçagem, de cruzamento. É a música, são as linguagem artísticas da dança, mas são igualmente os meios: em palco há dança, há danças, mas também há músicos e cantores, e acrobatas, e todo o espectáculo é apresentado em dois planos, o que está a acontecer em palco, e as projecções em vídeo, que mais do que acrescentarem cenários, são um verdadeiro plano do espectáculo, que dialoga e contextualiza e complementa o que se está a passar ao vivo.

Por fim, a mestiçagem estende-se, como é natural, aos performers. Para além da diversidade das disciplinas, convivem em palco artistas de raças diversas e até de diferentes capacidades de mobilidade. O que torna este Orfeu igualmente num exercício sobre os limites do corpo, ou a sua falta deles.
rosas

saiu à rua

Parece que nestas alturas do fim do ano, a morte aproveita para fazer umas razias. Há dias, foi o desaparecimento de Cesária. Neste fim de semana foi a notícia da morte de Vaclav Havel. E hoje acordei com a rádio a anunciar a morte de Kim Jong Il.

Infelizmente, da morte do ditador da Coreia do Norte nem se poderá dizer que deixa o mundo mais respirável, porque atrás de si já se perfila o ditador de serviço seguinte. Como li num comentário na net, a única esperança seria que o seu filho fosse mais saudável, assim uma espécie de Kim Jong Not So Ill, mas não me parece que tenhamos essa sorte, nós, mas sobretudo os norte-coreanos que por esta altura devem estar a rasgar as suas infantilizadas e oprimidas vestes em tão genuíno como manipulado sentimento de orfandade pela morte do seu querido líder.

Mas se a morte do ditador não me desperta uma lágrima, já a do ex-presidente da República Checa Vaclav Havel me provoca alguma tristeza e mesmo uma certa melancolia. Havel era um homem da cultura e das artes, dramaturgo e poeta, um intelectual dissidente e opositor ao regime comunista, e que fez o cross-over para a política como um dos líderes da revolução de veludo, o movimento que vinte anos depois da primavera de Praga de Alexandre Dubicek, trouxe a democracia à Checoslováquia.

Sim, porque Havel foi o último presidente da República da Checoslováquia, entre 1989 e 1992, e o primeiro da República Checa, entre 1993 e 2003 (ou seja era ele o presidente do país da única vez que eu fui a Praga, em 1997). Quando hoje a Europa se arrasta num estertor de interesses e mediocridade, é bom lembrar esses anos, não tão longínquos como isso, em que os povos da Europa, e líderes que os mereceiam, mudaram de vida e mudaram o mundo, pelas suas mãos, em revoluções de veludo que fizeram tombar frágeis regimes de ferro. Vaclav Havel foi um dos nomes que, por esses anos, encheram o nosso imaginário de esperança e futuro.